segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Eaglemoss Star Trek Busts - Kirk



Recebi hoje o primeiro busto da coleção da Eaglemoss, precisamente do nosso glorioso capitão Kirk, que vocês podem ver na foto. O legal dessa coleção é que ela tá sendo lançada no Brasil simultaneamente no exterior. O próximo lançamento é o Spock. Depois, pelo que vi no site estrangeiro da Eaglemoss, serão Worf e Data, nessa ordem.

Confesso que pensei que o busto fosse mais simples e menor. Pra minha surpresa, ao abrir a caixa hoje, descobri que o busto pesa aproximadamente 1 kg, é todo de metal, e de um tamanho bastante razoável, acredito que uns 15cm.

O Spock deixarei passar, pois me pareceu com a fisionomia bastante diferente do Nimoy. Já o Kirk conseguiu captar muito bem a expressão do Shatner. Porém, Worf e Data comprarei com toda a certeza, pois eles ficaram IDÊNTICOS aos originais.

Enfim, uma boa coleção para se fazer.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Who watches the watchers?



Sempre utilizo Star Trek em minhas aulas, seja em exemplos gerais durante alguma aula ou então em atividades especialmente preparadas tendo algum episódio como centro.

Um dos episódios que mais gosto de trabalhar é "Who watches the watchers?", da terceira temporada de TNG. Creio que se trata de uma história perfeita para ilustrar como pode ser traumático o choque entre culturas muito diferentes.



Na última aula em que o usei, expliquei que a cena final, quando Picard despede-se dos mintakianos, se trata claramente de uma referência à "Última Ceia",  de Leonardo da Vinci. Como é possível imaginar, os cerebrozinhos explodiram!

Mas, é evidente que nesse caso o sentido desta última reunião é inverso. Enquanto Jesus se despede de seus apóstolos, passando da existência humana para uma existência divina e assim inaugurando uma crença, Picard despede-se dos mintakianos de maneira oposta, revelando-se totalmente humano e afastando a possibilidade de um credo sobrenatural em torno de si. 

Portanto, é uma cena genial, com sentidos que nem sempre são captados instantaneamente. Star Trek sempre será um baita recurso pedagógico.

Como tarefa, peço que os alunos redigiam um pequeno artigo comparando a história vista no episódio com os fatos históricos relativos ao primeiro contato entre índios e portugueses no Brasil.

O resultado geralmente é bastante satisfatório, como se pode ver no trabalho de uma aluna do 7º abaixo. Ela conseguiu aprender perfeitamente o significado da imagem analisada! Isto me deixa muito orgulhoso.

P.S: à primeira vista são 11 "apóstolos", mas tem um gurizinho atrás da personagem Nuria que mal dá pra ver.





Conhecendo René Auberjonois

Momento alto: a sonhada foto com Odo

Acho que todo fã de Star Trek tem um sonho em comum: conhecer pessoalmente atores da série. E foi isso que consegui realizar em agosto passado, sendo este um dos momentos mais especiais de 2018 pra mim. 

Star Trek: Deep Space Nine completou 25 anos em 2018, e o nosso bom e velho "comissário" Odo deu um presente aos fãs brasileiros, vindo nos visitar pela primeira vez.

René, que já está com 78 anos, é uma verdadeira simpatia. Emocionou o público quando esteve no palco, como você pode conferir neste trecho de sua fala: "René Auberjonois na StarCon (São Paulo, 18/08/2018)". O momento que peguei o autógrafo você pode conferir aqui, em um lobby card dos anos 90 da minha coleção. E aqui, ele desenhando o balde do Odo, simplesmente incrível!

Enfim, conhecer René Auberjonois foi algo inesquecível.

Foto tirada pelo próprio René, para postar no twitter
Resultado final da convenção
Item da coleção

René Auberjonois no palco



sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A união dos trabalhadores em Rom

rom

Como se sabe, o capitalismo é, essencialmente, constituído por duas classes antagônicas: os trabalhadores e os capitalistas. Antagônicas pois possuem interesses diversos, a saber, os burgueses enriquecerem a custa da superexploração do trabalho da classe trabalhadora e, esta última, lutar por condições mais dignas de labuta e por melhores salários. Além disso, de acordo com as análises dos modos de produção e da história desenvolvidas por Karl Marx - o materialismo dialético e histórico - cada sistema de produção carrega dentro de si a contradição que o irá destruir. No caso do feudalismo, a formação da burguesia; no caso do capitalismo, a emergência do proletariado. Em suma, isto seria a luta de classes - o motor da história de acordo com o marxismo - , baseada nas contradições insuperáveis onde a oposição dialética entre tese e antítese cria uma terceira forma superior às anteriores, a síntese.

O sistema capitalista começa a se desenhar a partir dos escombros do modo de produção feudal, por volta do século XIV, quando a acumulação de capital oriunda do comércio, do mercantilismo e do metalismo irá possibilitar que a burguesia, além do poder econômico, passe a exercer também o poder político. Ou seja, aquela classe gestada no seio do feudalismo por fim o destruiu. O ápice deste movimento histórico se dá com a queda do Antigo Regime, no evento conhecido como Revolução Francesa, em 1789.

A partir da 1ª Revolução Industrial, em meados do século XVIII, uma nova classe desponta no horizonte histórico da humanidade, categorizada pelas ciências sociais como proletariado. Milhares de pessoas - que até então sobreviviam do seu trabalho artesanal ou agrário -, iniciam um grande deslocamento em direção aos centros urbanos, local onde as incipientes indústrias começam a surgir. Portanto, é assim que o proletariado se forma, a partir da exploração por parte da minoritária burguesia (proprietária das indústrias), do trabalho assalariado das massas de trabalhadores. Segundo Marx, o proletariado é a classe destinada historicamente a libertar-se através do processo revolucionário que acabará com as classes sociais, a síntese entre capital e trabalho que seria o comunismo.

No início desse processo, não havia qualquer tipo de proteção ao trabalho, que era realizado em jornadas extenuantes de até 16 horas por dia, vividas pelos trabalhadores em condições precárias de saúde e moradia. Não somente o trabalho dos homens era explorado, mas também o de mulheres e crianças, que em geral recebiam, respectivamente, 1/2 e 1/4 dos salários pagos aos homens. É neste contexto que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores, tendo em vista obter melhores condições de trabalho e de salário. Estas organizações passaram a ser conhecidas como sindicatos, como veremos adiante.

Antes, precisamos destacar que, além da exploração do tempo de trabalho, algumas outras especificidades do sistema capitalista fazem com que, tendencialmente, haja a diminuição do valor da remuneração do trabalhador. Já que à burguesia pertencem os meios de produção (máquinas, matérias-primas, indústrias) e ao trabalhador resta somente sua força de trabalho (sua capacidade de produzir), esta é apropriada pelos capitalistas que procuram sempre diminuir o salário dos trabalhadores, de forma que possam, em sua busca incessante de maiores lucros, garantir ganhos maiores a custa do trabalho do proletariado.

De acordo com Engels, forma-se assim no capitalismo a chamada Lei do Salário, que acarreta na constante diminuição dos salários dos trabalhadores, fazendo com que se reforcem as algemas que escravizam cada vez mais o trabalhador ao produto de seu trabalho. Em outras palavras: ao trabalhar e sofrer a diminuição de sua remuneração para que os lucros dos donos dos meios de produção aumentem, o trabalhador precisa sujeitar-se a maiores jornadas de trabalho, colocar a família inteira para trabalhar (inclusive suas crianças), trabalhar mesmo doente, não tirar folgas nem férias etc.

Como o trabalhador sozinho não possui força alguma perante ao poderio econômico daquele que o emprega, torna-se imperioso que a classe se una em defesa de seus interesses. Daí a importância dos sindicatos, associações que promovem a segurança dos trabalhadores frente à voracidade com que a burguesia se atira sobre a força de trabalho do proletariado. Os sindicatos, que têm como objetivo primeiro impedir a redução dos salários - ou sua perpetuação em níveis baixíssimos, que servem apenas para manter o trabalhador vivo até o dia seguinte de trabalho -, fortalecem a classe, que assim se coloca em pé de igualdade ao patronato, este sim, devido ao seu número reduzido, está desde sempre coeso e bem organizado em defesa de seus lucros. Portanto, a partir da organização sindical, a exploração sem freios torna-se um pouco mais complicada para os patrões.

Na Federação dos Planetas Unidos, a luta de classes foi abolida por um motivo muito simples: já não existe a imposição do trabalho para suprir as necessidades materiais do ser humano. Logo, já não existe a menor possibilidade de exploração - nem de opressão - de uma classe sobre outra. O fator central nesta nova configuração social, política e econômica, são os replicadores. Estes equipamentos, de acesso gratuito e universal, são capazes de produzir instantaneamente desde xícaras de chá (Tea; Earl Grey; Hot. ;)) até máquinas complexas, anulando ao mesmo tempo a necessidade de dinheiro e a exigência do trabalho como modo de sobrevivência.

Por outro lado, os replicadores resolvem aquilo que o economista britânico John Maynard Keynes chamou de "problema econômico". Isto é, devido a finitude de bens e recursos há sempre a necessidade de escolhas e decisões que envolvem uma série de mecanismos, tais como preços ou o próprio mercado, que acabam por fazer que a acumulação de riqueza seja um dos motores da sociedade. A abundância promovida pelos replicadores elimina isto por completo.

Contudo, a maior consequência do advento dos replicadores na sociedade de Star Trek reside na total e completa emancipação do ser humano. Livre para ser e fazer o que quiser, a humanidade se aprimora, pois, libertando-se da unilateralidade surgida da divisão do trabalho, o ser humano se realiza plenamente. Embora a sociedade de Star Trek não possa ser caracterizada como uma sociedade comunista plena, sobretudo pelos traços colonialistas/imperialistas apresentados pela Federação, sempre vem à mente a conhecida passagem de A Ideologia Alemã (Marx; Engels, 1846), que cai com uma luva sobre quem são os seres humanos do século XXXIV em Star Trek: 

"Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de actividade exclusiva, é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico."

No entanto, no universo de Star Trek, não existem somente os planetas da Federação, mas toda uma gama de civilizações que ainda utilizam dinheiro e vivem em sistemas econômicos semelhantes ao capitalismo da Terra no século XXI. Sem dúvida, os ferengis, são os maiores representantes na franquia da selvageria e da injustiça do capitalismo. Em Deep Space Nine, o ferengi Quark sintetiza de forma genial esse estado de coisas. Quark é o resumo do que o ser humano é no sistema capitalista: um acumulador e trocador de mercadorias e valores. Indo além: representa o capitalista por excelência, um explorador obcecado pelo lucro.

No episódio 16 da 4ª temporada de Deep Space Nine "Bar Association" (O Sindicato), Rom, irmão e funcionário de Quark no bar da estação, devido à exploração sem igual que sofre, está há semanas trabalhando doente. Quando finalmente desmaia e vai para a enfermaria, o Dr. Bashir, chocado com a situação, sugere que Rom deveria montar um sindicato, de modo a se proteger da ganância de Quark, já que não possui nem direito a férias nem a plano de saúde. Quando Rom retorna ao bar fica sabendo que Quark diminuirá o salário de todos os funcionários, devido a queda no faturamento pela ausência dos bajorianos, que se encontram no período de "limpeza", no qual devem se abster de qualquer atividade de recreação.

Aqui, Quark, enquanto proprietário dos meios de produção, aplica a Lei do Salário que vimos acima, reduzindo a remuneração dos seus empregados, de forma a manter seus lucros e forçá-los a trabalhar ainda mais. Assim, Rom decide reunir os funcionários do bar e propor a fundação de um sindicato, ideia que choca os empregados ferengis, temerosos da reação da Autoridade Comercial Ferengi (AFC), que representa no episódio o que seria uma espécie de sindicato patronal, que reprime fortemente qualquer tentativa de organização dos trabalhadores.

Por fim, o sindicato é constituído e, agora como fator de fortalecimento dos proletários, parte para cima do patrão com suas reivindicações. Quark as rejeita, fazendo com que não restem alternativas aos trabalhadores a não ser iniciar aquele que é o maior instrumento de pressão sobre o patronato: a greve. Quark não se dá por vencido e tenta implementar garçons holográficos, numa alusão clara a substituição dos trabalhadores por máquinas, expediente clássico da burguesia para aumentar seus lucros.

No entanto, a ideia não dá certo e Quark decide iniciar um diálogo com Rom, ao qual tenta subornar de modo que este encerre a greve. Rom, no entanto, demonstra grande consciência de classe e além de negar o suborno cita a máxima de Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista (1848): "Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões". Sem dúvida alguma, Rom percebeu que Quark não pode sobreviver sem o trabalho de seus empregados e que isto concede enorme força à classe. É a tomada de consciência do proletariado.

Nesse meio tempo a greve continua e os trabalhadores passam a trabalhar na conscientização da clientela de Quark, fazendo com que esta inicie um boicote ao bar. Obviamente, existem aqueles que não acreditam na força da coletividade e mesmo assim continuam frequentado o estabelecimento, sendo Worf um deles. Chief O'Brien, que desde sempre representa o "working classe hero" de Deep  Space Nine, apoiador de primeira hora da luta dos funcionários de Quark, tenta conscientizar e impedir que Worf continue frequentando o bar, no que ocorre uma altercação que leva à prisão os dois mais o Dr. Bashir ,que tentou interromper a briga. Além disto, O'Brien relembra um seu antepassado, líder sindical na Grã-Bretanha da Revolução Industrial, que acabou assassinado, tornando ainda mais dramática a situação.

Enquanto isso, a AFC, na figura de Brunt e de seus capangas nausicaanos, tenta intimidar não somente Rom e o sindicato, mas também Quark, de forma que este encontre uma maneira de encerrar o movimento e a greve. Quark é espancado gravemente pelos nausicaanos, contudo, Rom permanece inflexível e não abre mão de que Quark atenda as exigências de melhores condições de benefícios, salários e trabalho dos empregados do bar. Por fim, Quark, em típica manobra do personagem, encontra uma solução: decide ceder e atender as reivindicações do sindicato, de maneira secreta, todavia, de forma que os trabalhadores sejam beneficiados sem que a AFC tome conhecimento. A classe trabalhadora venceu.

Os funcionários retomam o trabalho, satisfeitos com o cumprimento de suas exigências. Rom, por sua vez, decide abandonar o bar e passa a atuar como técnico de reparos da estação, trabalho que lhe proporcionará condições muito melhores. Final feliz para todos. À exceção de Quark que, daqui pra frente, sabe que a relação com seus empregados, agora conscientes de sua força, nunca mais será a mesma.

Bar Association (Episódio 16 – Temporada 4)
Roteiro: Ira Steven Behr e Robert Hewitt Wolfe
Direção: LeVar Burton
Exibido pela primeira vez em 19/02/1996



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Acessibilidade e inclusão em Melora

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Atualmente, um dos grandes problemas discutidos na sociedade diz respeito à questão da acessibilidade. Durante muito tempo, como se pode observar em construções antigas, por exemplo, não houve preocupação com o acesso das pessoas com deficiência a cinemas, teatros, igrejas, escolas, empresas etc. Portanto, ainda é muito recente - e problemática - a criação de meios que possibilitem a todos o acesso ao trabalho, ao estudo, ao transporte e ao lazer.

É uma obrigação do Estado Democrático de Direito, além do caráter de cidadania plena que as ações de acessibilidade promovem, garantir o direito humano de ir e vir, independentemente das dificuldades de locomoção que a pessoa possa ter. E não somente do Estado, mas de empresas, escolas e cidadãos, afinal, como entes sociais que são, todos possuem suas responsabilidades perante à sociedade na qual se incluem, ou seja: contribuir com o coletivo, através da inclusão dos excluídos. 

Está na Constituição Federal, em seu artigo terceiro: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; (...) IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.".

A palavra central na questão da acessibilidade para pessoas com deficiência é inclusão. Por este conceito, podemos entender 1) a aceitação das diferenças de cada um; 2) a valorização de cada ser humano, a partir de suas idiossincrasias; 3) o direito de todos ao convívio social. Desta forma, a inclusão contribui para a construção de uma sociedade mais justa, onde todos possam acessar os mesmos ambientes, sem empecilhos físicos e discriminações. Por outro lado, não pode-se exigir que a pessoa com deficiência adapte-se a um mundo projetado para pessoas não-deficientes, até mesmo porque seria impossível na maior parte dos casos. A perspectiva deve ser a inversa: é imperativo que governos e sociedade civil em geral se esforcem para criar as condições necessárias (isto é, a adaptação de meios de transporte, construção de rampas de acesso e banheiros adaptados, dentre outras ações) para que a inclusão se torne de fato uma realidade.

No Brasil, estima-se que quase 15% da população possua alguma necessidade especial. Devido a nossa população de mais de 200 milhões de habitantes, o percentual corresponde à população de diversos países. Em vista disso, políticas públicas se fazem necessárias, de forma a promover a inclusão destes 30 milhões de brasileiros com deficiência, sobretudo no mundo do trabalho. Assim, o mercado (que, por seu caráter excludente, tendencialmente vê com preconceito as pessoas com deficiência ao considerá-las com menor capacidade de trabalho que pessoas sem deficiência, logo, com menos capacidade de gerar lucros), precisa ser regulado, fato que ocorre desde 1991 com a chamada Lei de Cotas. De acordo com a lei, empresas com mais de 100 funcionários precisam formar entre 2 a 5% dos seus quadros com pessoas deficientes. No serviço público o percentual é ainda maior, 20% dos nomeados. São ações afirmativas, que servem para corrigir injustiças históricas que se perpetuariam caso não fossem combatidas na forma da lei e que ajudam a construir maior igualdade no acesso ao mercado de trabalho.

No episódio 6 da 2ª temporada de Deep Space Nine (Melora), somos apresentados a alferes Melora Pazler, natural do planeta Elaysian, conhecido por sua baixíssima gravidade. Desta forma, os elaysianos enfrentam dificuldades de locomoção nos ambientes de gravidade mais alta, como na Terra e nas instalações (naves e estações espaciais) da Federação. Portanto, o episódio apresenta uma bela metáfora a respeito dos problemas de acessibilidade e inclusão de deficientes no mundo atual.

Ao chegar na estação, Melora é recebida por Dax e pelo Dr. Bashir , que lhe prepara uma cadeira de rodas, com o objetivo de facilitar seu deslocamento na Deep Space Nine. Contudo, a cadeira é diferente da que a alferes está acostumada, e Dax lhe oferece ajuda, ao que Melora prontamente rebate: "Não, eu vou me adaptar". Aqui já fica evidente sua postura defensiva, frente a um mundo que frequentemente a enxerga como alguém doente. Melora chega à estação com o objetivo de realizar uma missão científica no Quadrante Gama, a qual Sisko ordena que Dax a acompanhe. Melora encara a decisão de Sisko como um sinal de que o comandante não a considera plenamente apta em realizar a missão, devido sua "deficiência". Começamos aqui a exercer a empatia em relação a Melora, já que passamos (os que não possuem deficiência) a ver o mundo pelos olhos de uma pessoa com deficiência, percebendo assim com mais clareza os momentos de preconceito pelos quais elas passam. Contudo, Dax explica que, no caso, Sisko não autorizaria nenhum oficial da Frota se dirigir ao Quadrante Gama sozinho um dia após sua chegada à estação.

Sobre sua reação ao comportamento da tripulação em relação a ela, Melora diz: "Sinto muito se pareço excessivamente sensível. Mas estou acostumada a ser excluída do problema 'Melora'. A verdade é que não há problema 'Melora'. Até as pessoas criarem um.". Ou seja, ciente de sua própria capacidade, Melora não aceita que a julguem a priori como uma pessoa que precisa de ajuda todo tempo. Ela sabe que, embora apresente no contexto de gravidade "normal" algumas dificuldades, isto não impede que ela execute plenamente suas obrigações. Assim, em sua visão, os outros tendem a criar um problema que não existe, pelo simples fato dela ser diferente.

De fato, quantas vezes não vemos isso ocorrer diante dos nosso próprios olhos, ou então, quando nós mesmos acabamos mistificando a situação de pessoas deficientes? A reflexão que o episódio propõe sobre nosso próprio comportamento em relação a pessoas com deficiência é muito importante. Em primeiro lugar, por mostrar como possuímos julgamentos a priori, com base em modelos mentais que carregamos até então; em segundo lugar: este tipo de abordagem faz com que aqueles que já costumam ser excluídos por conta de sua deficiência sintam-se ainda mais desiguais sob o olhar "piedoso" dos outros.

Por fim, Bashir tenta fazer com que Melora se adapte de forma final e irreversível à gravidade "normal". Melora fica dividida, pois sabe que se decidir levar adiante o procedimento nunca mais poderá viver normalmente em seu planeta natal. Bashir representa aqui o senso comum, que vê as pessoas com deficiência como incapazes de levar uma vida plena. Melora, evidentemente, representa a pessoa que, sempre vista como desigual, enxerga uma chance de igualdade. No entanto, ela tem muito a perder com esta transformação radical. Finalmente, embora o procedimento seja promissor, Melora acaba por se convencer de que deve continuar exatamente como é. Acredita que assim manteria sua identidade como elaysiana.

Como todo trekker sabe, Jornada nas Estrelas sempre nos brindou com reflexões sobre o mundo no qual vivemos. Melora é um episódio que não foge a regra, tratando de tema importante, que diz respeito à inclusão de um grande número de pessoas. Como Melora diz a Sisko: “Tente sentar na cadeira, comandante. Ninguém pode entender até se sentar na cadeira.”. É preciso empatia. Assim, Melora é uma história que se enquadra perfeitamente em dois pilares de Star Trek: a igualdade e o respeito à diversidade.

Melora (Episódio 6 – Temporada 2)
Roteiro: Evan Carlos Somers, Steven Baum, Michael Piller e James Crocker
Direção: Winrich Kolbe
Exibido pela primeira vez em 31/10/1993

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Storyboards da cena do atentado ao Chanceler Gorkon (Star Trek VI)

Há 27 anos, em 03/12/1991, ocorria a premiere em Hollywood do meu filme favorito de Jornada. Estrearia nos cinemas três dias depois. Para comemorar, alguns incríveis storyboards da cena do atentado ao Chanceler Gorkon.




















O novo Short Trek, "The Brightest Star," é centrado em Saru

Sinopse de “The Brightest Star” (estreia na próxima quinta-feira, 6 de dezembro):

Antes de ser o primeiro Kelpien a se juntar à Frota Estelar, Saru (Doug Jones) viveu uma vida simples em seu planeta natal de Kaminar com seu pai e sua irmã. O jovem Saru, cheio de ingenuidade e um nível de curiosidade incomum entre o seu povo, anseia por descobrir o que está além de sua aldeia, levando-o a um caminho inesperado.

Escrito por Bo Yeon Kim e Erika Lippoldt. Dirigido por Douglas Aarniokoski.







Os usos políticos do passado em Li Nalas

li nalas deep space nine usos políticos do passado

De forma inegável a história apresenta grande objetividade, significando com isto que os acontecimentos históricos de fato ocorreram e não são apenas discursos, como argumentava Foucault, ou ainda, apenas representações do passado, por dar presença aquilo que está ausente. Porém, também é inegável que a História é uma construção que ocorre ao longo dos séculos.

O que quero dizer com isto é que a História, enquanto disciplina escolar ou acadêmica, é fruto de sucessivas interpretações das sociedades do passado por parte dos historiadores, construídas, desconstruídas e reconstruídas a partir dos novos problemas que são colocados à sociedade. Isto posto, a historiografia é sempre filha de sua época e interpreta o passado a partir de problemas do presente, possuindo as conjunturas sociais, econômicas e políticas influência sobre sua produção. As fontes e os fatos históricos, ao mesmo tempo em que constroem a história, são construídos por ela também.

Neste sentido, a título de exemplificação, podemos citar diversos usos políticos do passado. Casos onde a instrumentalização da história serve a objetivos de determinados grupos no presente. Na historiografia brasileira temos um caso clássico destas sucessivas (re)construções da história: Tiradentes e a chamada Inconfidência Mineira.

Todos sabem que, a cada 21 de abril, a memória e a história do mártir da Inconfidência (aqui já percebemos uma intencionalidade no próprio termo, pejorativo, sendo que um dos significados da palavra, segundo o dicionário Michaelis, é a "falta de lealdade ou de fidelidade, geralmente para com um governante ou o Estado.") são reverenciadas pelo país, inclusive sendo a data feriado nacional, fato que por si só já demonstra quão poderosa é a simbologia em torno de seu nome.

Contudo, a imagem de Tiradentes nem sempre foi positiva. Executado por haver participado de um movimento de caráter republicano e independentista antes mesmo do Brasil deixar de ser colônia de Portugal, a imagem do dentista mineiro do século XVIII foi execrada, por razões evidentes, ao longo de todo o período imperial. Porém, após o golpe de estado de 1889, que derrubou a monarquia e instalou o regime republicano no Brasil, o novo governo passou a explorar a imagem de Tiradentes, símbolo que caía como uma luva naquele novo contexto, por guardar muitas semelhanças com o grupo que tomara o poder, pois como eles também era militar (alferes) e com pendores republicanos, oriundos do seu contato com o pensamento iluminista e com a Revolução Americana. Em suma, um herói perfeito para legitimar o novo regime, que até mesmo passa a ser representado de maneira semelhante à imagem clássica de Cristo no imaginário ocidental: barba e cabelos longos.

Já no caso da ditadura civil-militar vigente no país entre 1964 e 1985, existe ainda um outro componente que mobiliza disputas, a saber,  a criação de sentidos para aquele acontecimento histórico que impactou profundamente a sociedade brasileira.

Os intérpretes situados no espectro político da direita, em geral, argumentam que o processo de derrubada do presidente João Goulart foi uma revolução (ou contrarrevolução), com o objetivo de retomar o país das mãos dos "comunistas", que estariam prestes a tomar o poder, embora não exista nenhuma fonte que comprove este fato. Para a esquerda, que de fato embasa sua interpretação em documentos e testemunhos da época que demonstram não haver uma revolução comunista em curso, o que vem ao encontro da historiografia científica e mais imparcial, 1964 tratou-se de um golpe, que encerrou a democracia no país por 21 anos, após a queda do presidente legítimo João Goulart.

Estes são alguns exemplos, dentre muitos outros ("Descobrimento" do Brasil, heroísmo dos bandeirantes, "Revolução" Farroupilha, "Revolução" de 1930, “Revolução” de 1932, etc.), que demonstram como a história se trata de uma construção intelectual, que em muitos casos visa a criação de sentidos que venham atender objetivos políticos imediatos dos mais diversos grupos. Aliás, tanto a História quanto a Geografia, no momento em que foram alçadas a disciplinas escolares e acadêmicas, apenas há dois séculos, surgiram como instrumentos do nacionalismo emergente com a função de despertar nos cidadãos sentimentos patrióticos.

Evidentemente, apesar da neutralidade ser impossível de ser atingida, todo historiador realmente comprometido com a ciência histórica, deve se posicionar de maneira mais imparcial possível sobre seus objetos de estudo. Por outro lado, é indiscutível que o historiador também cumpre uma função social, tendo por dever denunciar e combater toda forma de opressão e totalitarismo, seja de direita ou de esquerda.

Nos três primeiros episódios da segunda temporada de Deep Space Nine ("The Homecoming" [A Volta para Casa], "The Circle" [O Círculo] e "The Siege" [O Cerco]) somos apresentados a personagens e acontecimentos que remetem ao que discutimos acima. Como se sabe, Bajor foi dominada por 60 anos pelos cardassianos, que deixaram um legado de tortura, morte de destruição entre os bajorianos. Contudo, ao longo de toda a ocupação, movimentos de resistência foram organizados em Bajor, combatendo de forma aguerrida o invasor.

Nos episódios trazidos à baila, são mostrados os eventos ocorridos após a descoberta de que Li Nalas, um dos grandes heróis da resistência bajoriana, está vivo. Após retornar para Bajor, passa a haver a exploração de sua imagem com objetivos políticos, ao considerar-se importante que Nalas se torne um símbolo em prol da união do povo bajoriano, que, no caos pós-dominação, encontra-se dividido em diversas facções que lutam pelo poder.

Uma destas facções, denominada "O Círculo", é liderada pelo ministro Jaro Essa, de viés radical e xenofóbico (Bajor para os bajorianos), tendo como objetivos derrubar o governo provisório instalado após o término da ocupação cardassiana, e a reboque, expulsar a Federação dos Planetas Unidos do sistema Bajoriano. No entanto, sem que seus militantes saibam, o grupo é abastecido de armas pelos inimigos cardassianos, que em uma estratégia sofisticada, procuram derrubar o governo bajoriano através dos próprios bajorianos, fazendo com que após a queda do regime a Federação retire-se de Bajor, abrindo assim o caminho para a reconquista cardassiana do planeta.

A partir das investigações da tripulação da estação, finalmente os rebeldes do Círculo são confrontados com a verdade sobre o plano de Cardássia para retomar o controle sobre Bajor, no qual foram habilmente manipulados para sua realização. Não aceitando deixar para trás a derrubada do governo provisório, um dos militares radicais do Círculo, coronel Day Kannu, tenta assassinar Sisko, atingindo acidentalmente Li Nalas, que se colocou em frente ao disparo para proteger o comandante.

Antes mesmo de sua morte, Li Nalas já era um mito histórico no sentido literal: uma representação idealizada de um determinado ser que atende anseios de uma sociedade. Sua história, ou a memória de seus atos durante a resistência, não se ancoram na realidade. Tido como um grande herói por ter matado um líder cardassiano em uma luta brutal, na verdade Nalas atirou no inimigo quando este se encontrava totalmente vulnerável, trajando apenas roupas de baixo, ao sair do banho. Por mais que Nalas tenha tentado evitar a mitificação de seu ato e de seu nome, perdeu o controle da situação e a história, de caráter heroico, ganhou Bajor, tornando-se verdade, e servindo como sentido legitimador e estimulador para a resistência.

A consolidação do mito do herói Nalas vem com seu desaparecimento glorioso. Li Nalas simboliza a luta por liberdade de Bajor, mesmo que seus atos não tenham sido espetaculares. No entanto, é do interesse tanto do Governo Provisório quanto da Federação que Nalas seja cultuado, mesmo que isso sacrifique a "verdade". Sua figura será importante para a estabilidade de Bajor. Sua memória deve atender aos objetivos políticos desta aliança.

Além disso, como nos lembra Rüsen, a narrativa histórica tem como uma de suas funções orientar a vida prática no tempo. Dentro dos seus quatro tipos possíveis, segundo o pensador alemão, assume relevância para o caso de construção do mito histórico de Li Nalas a narrativa histórica exemplar. Nas narrativas históricas exemplares são lembrados os acontecimentos que estabelecem regras gerais de conduta, de forma a criar uma identidade. Li Nalas, segundo a narrativa em torno de si, agiu exemplarmente, no contexto de luta contra o invasor cardassiano, criando um senso de identidade entre os bajorianos que afirma que a única postura possível na dominação é lutar contra o dominador. Portanto, nesse caso específico, a velha máxima historia magistra vitae (história mestra da vida) tem seu sentido renovado, sobretudo no diálogo final do episódio triplo entre Sisko e O’Brien.

Ao conhecer o indivíduo Li Nalas, O'Brien percebeu que este se tratava de um homem comum, que não condizia com o mito Li Nalas. Como resposta, Sisko afirma:

"Li Nalas era o herói da resistência bajoriana. Ele praticou excepcionais atos de coragem pelo seu povo e morreu pela liberdade dele. Será assim que os livros de história de Bajor serão escritos e será assim que me lembrarei dele, quando alguém perguntar"

Assim nasce um mito, parido pela mitificação e pelos usos políticos do passado.

The Homecoming (Episódio 1 – Temporada 2)
Roteiro: Ira Steven Behr
Direção: Winrich Kolbe
Exibido pela primeira vez em 26/09/1993
The Circle (Episódio 2 – Temporada 2)
Roteiro: Peter Allan Fields
Direção: Corey Allen
Exibido pela primeira vez em 03/10/1993
The Siege (Episódio 3 – Temporada 2)
Roteiro: Michael Piller
Direção: Winrich Kolbe
Exibido pela primeira vez em 10/10/1993

sábado, 1 de dezembro de 2018

A banalidade do mal em Marritza

banalidade do mal marritza

"Eichmann em Jerusalém - a banalidade do mal", é um dos livros mais conhecidos da filósofa judia-alemã Hannah Arendt. Escrito a partir de seu trabalho de cobertura para a revista New Yorker do julgamento do tenente-coronel nazista Otto Adolf Eichmann, ocorrido em Israel, entre 1960 e 1962, apresenta um relato impressionante sobre a sistematização da barbárie criada pelos nazistas. Eichmann, que após a queda de Hitler escondeu-se na Argentina, por fim foi localizado em Buenos Aires pelo Mossad, o serviço secreto israelense, e levado à Jerusalém para que fosse julgado por seus crimes contra a humanidade.

Inicialmente, Eichmann atuava como um burocrata do regime nazista, responsável pela logística de deportação da população judaica para fora do território do Reich. No entanto, após a invasão da União Soviética pelo exército alemão, em 1941, uma mudança de diretrizes ocorreu, e o que antes era apenas a deportação dos judeus passou a ser o que os nazistas chamavam de "solução final", isto é, o extermínio das pessoas de origem judaica. A partir de então, Eichmann, descrito por Arendt como um tipo mediano, que sequer havia concluído os estudos secundários, tornou-se um dos responsáveis pelo envio de milhões de judeus para os campos de extermínio, onde eram escravizados e assassinados sistematicamente em câmaras de gás, quando não morriam por inanição ou fuzilamento.

Em síntese, Arendt afirma que Eichmann se tratava de um burocrata, que embora nunca tenha matado sequer um ser humano com suas próprias mãos, fora responsável pela morte de milhões de judeus, a partir de seu trabalho como administrador de logística. Eis a banalidade do mal descrita por Arendt: Eichmann cumpria seu expediente, como um típico burocrata em um emprego banal, que, ao término do dia, retornava ao lar para o convívio com sua esposa e filhos. O monstro nazista era um homem comum, um simples funcionário público que apenas obedecia as ordens do regime em vigor.

Muito já se falou a respeito da opressão cardassiana sobre Bajor remeter à dicotomia nazistas/judeus durante a 2ª Guerra Mundial. No episódio 19 da 1ª temporada de Deep Space Nine, a analogia faz todo o sentido. Em "Duet" (O Dueto), o cardassiano Aamin Marritza chega à estação necessitando de cuidados médicos, portador de uma doença chamada Kalla-Nohra, adquirida após um acidente no campo de trabalhos forçados para bajorianos de Gallitep. Marritza afirma ter atuado no campo como um simples arquivista, portanto, um burocrata, à semelhança de Adolf Eichmann, sem maiores implicações, em sua visão, na violência praticada contra os bajorianos. Em Gallitep, os oficiais cardassianos cometeram toda sorte de atrocidades contra os bajorianos confinados, que morriam assassinados ou vitimados pela fome e pela doença.

Após ser detido para averiguações, já que Kira exige que Marritza seja julgado como criminoso de guerra por sua atuação no campo de Gallitep, o cardassiano confessa que na verdade se trata de Gul Darhe'el, o oficial responsável pelo campo, logo, culpado pela tortura e morte de milhares de bajorianos. Nesse meio tempo, Sisko e Odo investigam com a ajuda de Gul Dukat se a informação procede, obtendo deste a explicação de que Gul Darhe'el havia morrido alguns anos antes enquanto dormia, semelhantemente a muitos oficiais nazistas que nunca pagaram por seus crimes. Em sua confissão, numa cena antológica, afirma para Kira: "O que você chama de genocídio, eu chamo de dia de trabalho", aproximando-se de maneira evidente ao papel de Eichmann no holocausto judaico.

Contudo, na sequência da investigação, descobre-se que o cardassiano se tratava realmente do arquivista Aamin Marritza, que sentindo-se terrivelmente culpado por sua participação no genocídio bajoriano desejava ser executado como Gul Darhe'el, para que Cardássia fosse responsabilizada, enfim, por seus crimes durante a ocupação de Bajor. Na ficção, um desfecho bastante diferente do acontecido com Eichmann, que, de certa forma, nunca percebeu a magnitude de sua participação no extermínio dos judeus, pois somente cumpria ordens, como um funcionário qualquer.

De semelhante, além do fato de ter presenciado todo o horror de um campo de concentração sem que se insurgisse contra, apenas sua morte, pelas mãos de um bajoriano no promenade. Assim como Eichmann, condenado e enforcado pelos israelenses, em 1º de junho de 1962.

Duet (Episódio 19 – Temporada 1)
Roteiro: Peter Allan Fields
Direção: James L. Conway
Exibido pela primeira vez em 13/06/1993

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Nazismo e sua representação em Star Trek, por Fernando Rodrigues Fonseca



Como professor de História e trekker, é evidente que, sempre que possível, utilizo Star Trek em minha atividade docente. Seja em exemplos diversos dados em meio as aulas, seja através de trabalhos mais específicos e elaborados como é o caso do trabalho que relato neste post. 

Tenho uma turma de 9º ano fantástica, com alunos acima da média. Esse fato por si só já facilita tremendamente o meu trabalho, por outro lado coloca um desafio ainda maior a minha frente, já que se tratam de alunos inteligentes e curiosos, que não se satisfazem com o mínimo. Querem sempre o máximo. Por isso, criei uma atividade para o conteúdo de Nazismo e 2ª Guerra Mundial envolvendo o episódio "Padrões de Força", da segunda temporada da série original. Um trabalho exigente, que busca despertar a capacidade dos alunos em interpretarem a sociedade na qual vivem, bem como problemas históricos, a partir das obras audiovisuais de ficção. Mas por que Star Trek, se existem tantas obras que tratam sobre a 2ª Guerra Mundial e o Nazismo que se passam no calor dos acontecimentos? A resposta é simples: pelos valores que Star Trek nos ensina. Além do respeito à liberdade, à diversidade, aprendemos com Star Trek a defesa intransigente da tolerância. A filosofia principal de Jornada nas Estrelas é "Infinita diversidade, em infinitas combinações". Isto é, tudo que aprendemos com a série é justamento o oposto do que o nazismo pregou e colocou em prática. Por fim, o princípio basilar da Federação: A Primeira Diretriz. Esta norma versa sobre o primeiro contato com novas civilizações. É vedada a contaminação cultural sobre sociedades que se encontrem em estágios tecnologicamente inferiores, a fim de evitar o que os europeus fizeram com as sociedades pré-colombianas, por exemplo. Pois é exatamente uma violação da Primeira Diretriz que causa os problemas que podemos acompanhar no episódio. 

 As aulas foram planejadas mais ou menos da seguinte forma:

1. Expliquei brevemente a história do antissemitismo na Europa, até atingir o estágio de "antissemitismo racista", que serviu de força motriz ao nazismo;

2. Contextualizei o ódio e a perseguição sistemática aos judeus ao longo da década de 20 e seu recrudescimento a partir da chegada dos nazistas ao poder;

3. Exibi o documentário "Arquitetura da Destruição" com o objetivo de demonstrar que o nazismo se trata (também) de uma estética, objetivando "embelezar o mundo" através do extermínio dos elementos culturais e artísticos considerados degenerados (entartete kunst), elementos estes associados diretamente aos bolcheviques e aos judeus, considerados pelos nazis "representantes étnicos da internacional comunista"; 

4. Discuti a partir deste dado, que não bastava ao nazismo eliminar a arte "bolchevique e judaica", mas era necessário eliminar fisicamente (a solução final) os criadores desta cultura, isto é, os judeus, que desta forma foram diuturnamente desumanizados pela propaganda nazista, associados perante a opinião pública através dos meios de comunicação de massa a animais, insetos e vermes. Assim surgem os campos de concentração e extermínio. 

5. Para visualizarmos estes elementos em funcionamento, propus a exibição do episódio "Padrões de Força", de Star Trek, onde há uma denúncia contundente do nazismo. Na produção em questão, de 1966 (portanto duas décadas após a liquidação do nazismo), é possível verificar a perseguição, a desumanização e as tentativas de aniquilição de um povo. Na história, nazistas e judeus; na ficção, ekoseanos e zeons. Da mesma forma, o episódio nos transmite a ideia de que qualquer tentativa de extrair algo de positivo do nazismo (o desenvolvimento econômico da Alemanha nazista, por exemplo) é uma impossibilidade. Como disse John Gill, o observador cultural da Federação que feriu a Primeira Diretriz e implantou o regime nazista no planeta Ekos, tornando-se seu fuehrer: "Até mesmo os historiadores falham em aprender história. Cometem os mesmos erros". Sem dúvida, um alerta necessário, sobretudo nestes tempos onde o fascismo volta a mostrar os dentes. Para preparar os alunos, fiz uma apresentação em power point explicando as principais características do regime nazista, destacando um dos objetivos da atividade que é desenvolver o olhar crítico sobre produções audiovisuais e mostrando personagens e filosofias de Star Trek. Complementarmente, distribuí um texto de minha autoria intitulado "Nazismo: a barbárie na civilização", construído de forma a destacar - sem relacionar diretamente - estratégias nazistas para a legitimação do holocausto presentes no episódio "Padrões de Força". 

6. Para finalizar, sugeri aos educandos que produzissem um artigo onde pudessem demonstrar que aprenderam a utilizar as produções audiovisuais como ferramentas de leitura de mundo, interpretação da realidade e problematização historiográfica. O formato do artigo vem em seções padronizadas: Título; Resumo; 1. Introdução (apresentar a intersecção dos dois temas: Nazismo e Star Trek); 2. Nazismo e perseguição aos judeus (com o objetivo de historizar-se o holocausto); 3. Realidade e ficção (com o objetivo de desenvolver a competência de leitura crítica de determinado evento histórico a partir de obra ficcional); 4. Conclusão; Referências. 

Às alunas e aos alunos (meninas dominam!) que atingiram mais do que satisfatoriamente a proposta da atividade, obtendo nota máxima, fiz o convite para que seus textos fossem publicados aqui, o que foi aceito por Fernando, HenriqueEllenJúliaLuanaSara e pelo Felipe, algo que me honra demais. Como é bom quando o professor tem esse material humano para trabalhar. São meus queridos formandos da turma 92, turma a qual me sinto extremamente orgulhoso e agraciado com o privilégio de ser seu paraninfo.

De última hora recebi mais um artigo ótimo do Fernando:

Nazismo e sua representação em Star Trek


Fernando Rodrigues Fonseca


RESUMO: O nazismo foi um movimento que fez um grande e terrível marco na história da humanidade, causando a morte de milhões de inocentes por questões raciais e irracionais, mas por que alguém teria tanto ódio apenas por diferenças? Este artigo apresentará o porquê, e também será citado o episódio 21 da segunda temporada de Star Trek, “Padrões de Força” e sua representação do nazismo.

PALAVRAS-CHAVE: Nazismo. Racismo. Star Trek.

INTRODUÇÃO

Neste artigo serão abordadas algumas questões do nazismo como, seus motivos, como foi criado, resultado, suas ideias e como foram implantadas, e como foi feita a representação dele no episódio 21 da segunda temporada de Star Trek, série norte-americana criada por Gene Roddenberry.

NAZISMO E PERSEGUIÇÃO AOS JUDEUS

Em 1926, durante sua prisão por tentativa de golpe de estado, Adolf Hitler escreveu “Mein Kampf” (Minha Luta), livro que serviu de base para a ideologia nazista. No livro, Hitler contou os princípios do nazismo, dentre eles estava o racismo e o ódio pelos judeus, a quem Hitler culpava pela crise econômica na Alemanha.

Em 1933, o nazismo chegou ao poder e, em pouco tempo, trataram de assegurar sua permanência no poder, assim se iniciou o Terceiro Reich, período do poder de Hitler, o fuhrer (líder).

Em 1935, foram instituídas as Leis de Nuremberg, leis que determinavam a segregação racial entre judeus e arianos. A partir de então, o caráter racista do regime só se intensificou, levando à perseguição e eliminação dos judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais. O objetivo de Hitler ao iniciar essas perseguições era, além de vingança, criar o “novo homem ariano”. A principal responsável pelas perseguições foi a Gestapo, a polícia política nazista. Após um tempo, além da perseguição, foi posto em prática a “solução final”, que constituía no genocídio de judeus usando câmaras de gás.

No final da Segunda Guerra Mundial foi somado mais de 6 milhões de vítimas do nazismo.

REALIDADE E FICÇÃO

No episódio 21 da segunda temporada de Star Trek, a nave U.S.S. Enterprise recebe a missão de procurar John Gill, um historiador humano desaparecido da federação, que foi enviado ao planeta Ekos como observador cultural. Quando Spock e Kirk chegaram em Ekos, percebem um zeon (habitante de Zeon) sendo preso por ekoseanos usando uniformes idênticos aos da Alemanha nazista, e perceberam, por um discurso seu passando pela televisão, que Gill estava agindo como fuhrer, assim podemos identificar os zeons como judeus e ekoseanos como nazistas.

Mas por que Gill implantou o nazismo em Ekos? Seu objetivo na verdade era trazer a parte boa do nazismo para fazer a civilização prosperar mais rapidamente, mas seu vice, Melakon, trouxe o racismo, justificando qualquer problema com a presença de zeons e cria a “decisão final”, que igualmente à “solução final”, consiste no genocídio de zeons/judeus.

Após Spock e Kirk se infiltrarem disfarçados de nazistas na sala de Gill, conseguem recuperar o suficiente de sua consciência para fazer outro discurso para acabar com o nazismo e culpar Melakon. Após isso, Gill é morto por Melakon e suas últimas palavras foram “até historiadores falham em questões de história, eles repetem os mesmos erros”.

CONCLUSÃO

O nazismo foi algo horrível que marcou a história pelo genocídio de milhões de judeus e deverá ser lembrado para que nunca ocorram os mesmos erros. Obras como esse episódio de Star Trek são boas representações de como o nazismo é e foi ruim e porquê não deveria ser repetido em nenhum lugar.

BIBLIOGRAFIA

https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/nazi-racism

https://www.infoescola.com/historia/nazismo/

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Star_Trek_(s%C3%A9rie_original)