segunda-feira, 4 de julho de 2022

Apostila do curso "Star Trek: 55 anos de utopia e crítica social"

 


Tá liberada (gratuitamente) a apostila do curso 'StarTrek: 55 anos de utopia e crítica social' que ministrei no ano passado. 

Baixem à vontade e compartilhem com os amigos e amigas trekkers.

É nesse link: https://www.academia.edu/82523068/Star_Trek_55_anos_de_utopia_e_critica_social

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Star Trek: Strange New Worlds


Após anos apostando em temporadas fortemente serializadas com Discovery e Picard, Star Trek retorna às suas origens, apresentando em Strange New Worlds histórias mais episódicas, divertidas e cheias de aventura. Gostei. 

Já a segunda temporada de Star Trek: Picard decepcionou. Após uma excelente primeira temporada, a série voltou com uma história confusa, cheia de som e fúria, mas com pouco significado. Atribuo a queda na qualidade à ausência de Michael Chabon na produção dos roteiros. Torço para que ele volte na próxima e última temporada. 


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O kelpien Saru e o pintor Giotto

 

No episódio “Morrer tentando”, da terceira temporada de Star Trek: Discovery, o capitão Saru, em pleno século 32, menciona o pintor medieval Giotto di Bondone, que viveu entre os século XIII e XIV, portanto na Baixa Idade Média.

O contexto no qual Saru menciona o pintor é o da busca de novos olhares, de novas perspectivas para a reconstrução da Federação. O kelpien está preocupado com o Almirante Vance que mostra, com alguma razão, uma postura cautelosa e conservadora sobre missões exploratórias.

Então Saru, desejando que a Discovery possa sair explorando a galáxia, defende seu ponto de vista usando o exemplo de Giotto, que havia revolucionado a pintura a partir de uma nova abordagem artística.

O que fica claro nesse ponto é que tanto Saru quanto Giotto são ambos questionadores e promotores de rupturas, e daí vem a admiração do kelpien pelo artista italiano.

Vamos ver melhor isso.

A importância de Giotto para a história da pintura

Giotto foi um precursor da Renascença ao introduzir a perspectiva na pintura europeia que era, até então, bidimensional. Ou seja, as pinturas com profundidade que conhecemos hoje devem sua existência a Giotto.

Além disso, Giotto dá vida aos personagens representados em suas obras. Embora continue pintando motivos religiosos e cenas bíblicas, Giotto o faz com personagens que parecem gente de verdade, inclusive quando pinta os santos. Giotto é o agente de um importante ponto de inflexão na arte ocidental. Um artista que sinalizava o fim de uma era e a chegada de uma nova. O fim de uma era de trevas e a chegada das luzes.

No século 32 de Discovery temos esse mesmo problema colocado.

Características compartilhadas com Saru

Saru possui muitas coisas em comum com o pintor que admira. Assim como Giotto, Saru levava uma vida simples no campo, uma vida rural pré-determinada: passar pelo Vaharai e ser colhido pelos Bauls.

Giotto era apenas um menino que cuidava de ovelhas e gostava de desenhar e sonhava com um mundo diferente. Quando descoberto por Cimabue (o último grande pintor europeu de tradição bizantina) ele percorre uma nova trilha. Foi o seu talento e curiosidade que alteraram o rumo da sua vida camponesa.

Com Saru ocorre o mesmo. Curioso, inquieto, olhava para o céu e para o seu redor e questionava o mundo em que vivia. Sua curiosidade o levou a descobrir como mandar um sinal para o espaço. Sinal respondido pela Frota Estelar. E assim ele se tornou o primeiro kelpien da Frota e, como Giotto, encerrou uma era do seu povo e abriu uma nova. No século 32 descobrimos que Kaminar, o planeta de Saru já faz parte da Federação. O seu sonho foi realizado.

Em comum os dois têm essa fascinação pelos céus e pelas estrelas. Durante a vida de Giotto houve a passagem do cometa Halley, inspirando o artista na representação da Estrela de Belém na pintura Adoração dos Magos.

Incompreensão e reconhecimento

Saru foi desencorajado pelo seu pai na sua busca por conhecimento. Isso significa que Saru, me desculpem o clichê, estava à frente do seu tempo e por isso mesmo não era compreendido. A mesma coisa com Giotto.

Existem poucos registros sobre a vida do pintor medieval, mas penso que podemos afirmar com certeza que muitas pessoas devem ter estranhado o seu novo modo de pintar e até mesmo o desencorajado. Assim como Saru. Mas isso não impediu que Giotto fosse aclamado em sua própria época, algo raro na história da pintura. Inclusive por Dante Alighieri.

Saru também é reconhecido entre os seus pares como alguém notável, fora do comum. O fato de vir de um povo muito primitivo e chegar aos mais altos postos na Frota Estelar é a prova disso. E quando pensamos nisso percebemos claramente como existem pontos de contato nas trajetórias de Giotto e de Saru e é por isso que o nosso querido kelpien admira o pintor e a sua lição de que novas perspectivas sempre serão importantes para a história.

E é por isso também que nessa nova Idade das Trevas que Saru encontra no século 32 que ele resgata a figura de Giotto, um artista que teve a capacidade de lançar um novo olhar sobre o mundo e abrir novas perspectivas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Os 55 anos de Star Trek: o ser humano em busca da Fronteira Final

 


Eu me tornei fã de Jornada nas Estrelas no ano em que ela completava 25 anos. Lá se vão exatas três décadas, e hoje, 8 de setembro de 2021, a jornada original de 5 anos da USS Enterprise chega a impressionantes 55 anos. Completar tanto tempo no ar com a vitalidade e a relevância que a série original exibe é pra poucos (não nos esquecendo de todas as suas séries derivadas, tão ou até mais importantes do que a original). 

Era quase impossível imaginar naquela altura que Star Trek chegaria tão longe, onde nenhuma série jamais esteve. E isso se deu não somente pelas histórias empolgantes, pelos atores carismáticos, pela imponente nave Enterprise. A permanência de Jornada nos corações e mentes de gerações de trekkers deve muito ao seu tema principal: o ser humano e a sua aventura pelo tempo e pelo espaço. 

Não apenas o ser humano em seus dilemas e ofícios, mas o ser humano naquilo que possui de melhor: o seu amor pelo conhecimento, a sua busca por evolução e a sua tentativa de viver uma vida de harmonia e paz. Estes elementos constituem a essência de Star Trek, que por isso mesmo apaixona a todos que compartilham dos mesmos ideais. O humanismo em Jornada nas Estrelas é onipresente. 

Enquanto a ficção científica até então apresentava mundos distópicos, com tristes fins para a humanidade, Gene Roddenberry (que neste ano de 2021 completaria 100 anos) tomou a direção oposta, criando uma utopia de união dos povos, de respeito às diferenças - e não só respeito, mas a valorização destas – e também um universo no qual os problemas típicos da nossa era – pobreza, violência, guerra, racismo etc. -  haviam sido superados. Um mundo de liberdade personificado na sociedade conhecida como Federação Unida de Planetas. 

Mas muito além da liberdade, a igualdade. Afinal, uma pode existir sem a outra? O incontornável filósofo Domenico Losurdo nos ensina que não. Para que haja, de fato, a verdadeira liberdade, é preciso antes de tudo a igualdade. A sociedade vista na Federação Unida de Planetas nos revela isso: já não há mais classes sociais, nem a exploração de poucos sobre muitos. Assim, os seres humanos se tornaram aptos para o pleno desenvolvimento, livres das amarras da opressão, seja de qual tipo for.

O meio-humano e meio-vulcano Spock, a partir da sua lógica, nos legou o ensinamento de que as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos. O capital, que já não mais existe naquele universo, dá lugar ao social, cede seu espaço à humanidade. Aliás, a filosofia geral de Star Trek também vem dos vulcanos: infinita diversidade em infinitas combinações. Igualdade, liberdade e a celebração da diferença. 

Star Trek demonstra que é com o contato com o outro que nos tornamos melhores. Que aprimoramos a nós mesmos para enriquecermos o nosso espírito e colaborarmos com o desenvolvimento coletivo, sendo esta última lição aprendida com o maior capitão de toda a história da Frota Estelar, o francês com sotaque e hábitos britânicos (Tea. Earl Grey. Hot.), Jean-Luc Picard. 

Tudo isso, e muito mais, toca fundo no imaginário das pessoas. Assim explica-se o devotado amor dos fãs pela série. Star Trek nos oferece valiosos ensinamentos que devem ser cultivados para fortalecermos a crença de que, sim, um outro mundo é possível. Não somente possível, mas uma imposição histórica sob pena de que a sua não realização comprometerá a própria existência da humanidade como um todo. 

Estamos muito longe ainda de atingirmos o quase paraíso imaginado por Gene Roddenberry, o que não nos impede de sonhar, e melhor ainda: sonhar juntos. E mais que isso: agir. Agir para construir a utopia. É isso que os trekkers têm feito ao longo dos 55 anos de Jornada nas Estrelas. Acreditamos em valores que ainda continuam sendo expressos só na tela da TV. Mas acreditamos que um dia poderemos chegar lá. E tentamos atuar como os nossos intrépidos heróis estelares. 

Star Trek se traduz em esperança. Star Trek nos motiva, nos alegra e nos aponta direções. Além dos inúmeros casos em que a série influenciou avanços científicos, não podemos nunca esquecer que o modelo social que a série apresenta deve servir como um parâmetro para os nossos próprios avanços sociais, aqui no atrasado século 21. 

A crítica social presente em incontáveis episódios de todas as suas encarnações também nos convida a refletir sobre nosso presente e a pensar nas formas de superar suas mazelas. Afinal, Star Trek nos conta histórias que se passam no espaço para falar da Terra; nos apresenta interessantes espécies alienígenas como metáforas da humanidade; e, mais importante, nos leva ao futuro para nos revelar o presente. Para que possamos revolucionar o velho mundo e construir o novo. Para que finalmente deixemos para trás a nossa pré-história e iniciemos, de fato, a história. Aí então essa longa jornada fará cada vez mais sentido. 

Vida longa e próspera a Star Trek. Que possamos viajar a bordo da Enterprise por muitos e muitos anos ainda, sempre em  busca da Fronteira Final, segunda estrela à direita, até o amanhecer...

sábado, 4 de setembro de 2021

Curso Star Trek: 55 anos de utopia e crítica social - agradecimentos

 Foi uma grande satisfação ministrar esse curso. Agradeço ao Jorge da produtora de cursos de televisão e cinema Cine Um pelo convite e apoio. Mas, sobretudo, meu obrigado vai para todas e todos que participaram. Foi ótimo discutir com vocês a utopia e a crítica social de Star Trek no momento em que seu criador, Gene Roddenberry, completaria 100 anos, e no ano em que sua criação imortal completa 55. Valeu! Uma vida longa e próspera.




sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Saiba mais sobre o curso STAR TREK: 55 ANOS DE UTOPIA E CRÍTICA SOCIAL

 



Apresentação do curso

STAR TREK: 55 ANOS DE UTOPIA E CRÍTICA SOCIAL

 

Star Trek é um fenômeno da cultura pop que cativa legiões de fãs há mais de cinco décadas. Ao longo de todo esse tempo, muito além do que seria apenas um programa genérico de ficção científica, Star Trek propôs reflexões sobre diversos problemas sociais.  Através da representação de uma sociedade utópica, personificada na instituição conhecida como Federação Unida de Planetas, aprendemos que o mundo visto em Star Trek superou a pobreza e a sociedade de classes, tornando-se uma sociedade pós-capitalista na qual acredita-se que “a acumulação de riqueza já não é mais a força motriz da vida”, nas palavras do personagem Jean-Luc Picard. A utopia de Star Trek é uma aposta na capacidade humana de evoluir e superar suas contradições históricas.

No caminho inverso da quase totalidade das produções do nicho da ficção científica e suas distopias aterradoras, Star Trek demonstra que existe um caminho melhor a ser seguido pela humanidade. Porém, não se trata de uma esperança vã, ingênua e acidental. Além de apresentar uma etapa superior da jornada humana pelo tempo e pelo espaço, Star Trek realiza, através de inúmeros episódios, surpreendentes críticas sociais, tornando muito nítida, por meio da ficção, a necessidade premente de superação dos problemas históricos reais como o racismo, o machismo, a desigualdade etc. É nesse sentido que podemos afirmar que Star Trek nos mostra o futuro para discutir o presente; nos leva pelo espaço para revelar a Terra; e nos apresenta toda sorte de espécies alienígenas para falar sobre o ser humano.

Ao longo dos seus 55 anos, a serem completados em setembro de 2021, Star Trek já produziu mais de 800 episódios para a TV e 13 filmes para o cinema. Diante dessa obra monumental, optamos por efetuar um recorte que abarca as três primeiras produções live action da franquia: Star Trek (1966-1969), Star Trek: The Next Generation (1987-1993) e Star Trek: Deep Space Nine (1993-1999), universo que, por si só, já compreende 17 temporadas e aproximadamente 400 episódios. Para os fins a que esse curso se destina – conhecer a utopia e a crítica social em  Star Trek – consideramos que essas três produções nos oferecem o melhor e mais relevante material a ser estudado.

 

Objetivos

O objetivo do curso é discutir as representações dos ideais utópicos de uma sociedade pós-capitalista nas séries Star Trek, Star Trek: The Next Generation e Star Trek: Deep Space Nine, bem como debater os convites à reflexão sobre questões sociais que estão presentes em seus episódios.

Para isso, é preciso determinar as temáticas abordadas, as perspectivas adotadas, a forma com que as histórias foram realizadas e a relevância dessas discussões para os fãs e para a franquia dentro do universo da cultura pop.

Igualmente, buscamos definir as relações possíveis entre a utopia expressa na franquia Star Trek, o contexto histórico das suas diversas produções e as críticas sociais efetuadas em episódios icônicos.

 

Conteúdo das aulas

Aula 1

·         Um panorama geral de Star Trek, a série clássica.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek, a série clássica em episódios selecionados.

·         Um panorama geral de Star Trek: The Next Generation.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek: The Next Generation em episódios selecionados.

Aula 2

·         Um panorama geral de Star Trek: Deep Space Nine.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek: Deep Space Nine em episódios selecionados.

·         A jornada prossegue: de Star Trek: Voyager até Star Trek: Strange New Worlds.

 Datas

Aula 1: 28 de agosto de 2021 (14h - 16h30)

Aula 2: 29 de agosto de 2021 (14h - 16h30)


Inscrições: https://www.sympla.com.br/curso-online-star-trek-55-anos-de-utopia-e-critica-social__1298400


O curso será ministrado online pelo zoom. 


Ministrante

Eduardo Pacheco Freitas é trekker em turno integral e professor e historiador nas horas vagas. Já cometeu dois livros sobre Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021). Além disso, é o criador do blog e do canal Apenas um Trekker, voltados para a produção de conteúdo sobre Star Trek em português.


Realização: Cine Um

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A estátua de Borba Gato e Terok Nor

 

Recentemente, a estátua do bandeirante Borba Gato, situada em São Paulo, foi alvo de uma manifestação na qual um grupo a incendiou. Esse ato corajoso e revolucionário segue uma tendência mundial em que organizações populares buscam destruir símbolos de um passado colonialista, escravocrata e genocida, passado este que é memorado e homenageado na forma de estátuas e monumentos que representam alguns dos seus agentes.

Foi assim com diversas estátuas de Cristóvão Colombo nos Estados Unidos e na Colômbia, e também com a estátua do traficante de escravos do século XVII Edward Colston, na Inglaterra. O entendimento dos manifestantes que promovem estes atos é de que toda estátua é uma homenagem. Logo, se uma estátua foi erigida representando um invasor que deflagrou o genocídio dos índios das Américas ou então um agente ativo do holocausto africano, parece evidente que estas estátuas, mais do que prestarem tributo a estes homens e seus atos, celebram as ideias que estiveram por trás deles.

Representar é tornar o ausente presente. Quando uma estátua é levantada ela dá corpo aquilo que já feneceu. Uma estátua de Cristóvão Colombo materializa a invasão das Américas e o os subsequentes genocídio indígena/escravidão africana. A estátua de Colston traz de volta à vida todo o sofrimento imposto, por meio das armas e da ideologia, aos povos da África durante séculos. Em cada uma destas estátua, o colonialismo, pai do racismo, da miséria e da submissão de uma infinidade de povos na atualidade, é glorificado e revivido. A estátua de Borba Gato enquadra-se perfeitamente nesse cenário.

 A questão central aqui é compreendermos por qual razão ainda hoje é possível que traficantes de escravos, genocidas, ditadores e outros bandidos sejam homenageados. As estátuas, monumentos e nomes de ruas que os representam não brotaram do nada. Muito pelo contrário, foram fruto da ação concreta de homens e mulheres concretos.

Na cidade de Porto Alegre, por exemplo, há uma avenida chamada Castelo Branco, em homenagem a um dos ditadores da Ditadura Civil-Militar de 1964. Por um breve período, o povo conseguiu renomeá-la para Avenida da Legalidade, em rememoração ao movimento liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola, em 1961, garantindo a posse de João Goulart, ameaçada pelos militares. Sairia a homenagem a um ditador e entraria a celebração da democracia. Entretanto, as forças políticas retrógradas do estado, apegadas ao passado ditatorial e sabedoras da importância dos símbolos para a política e para a ideologia, conseguiram regredir e rebatizar a avenida com o velho nome.

Algo assim acontece agora em relação ao incêndio na estátua de Borba Gato. Há um verdadeiro frenesi por parte da direita e da extrema-direita contra os manifestantes, tachados de terroristas. Houve a prisão a jato de três pessoas, sendo que uma delas nem estava presente no ato, presa apenas por ser a companheira de Paulo Galo, um líder em ascensão pelos direitos dos entregadores de aplicativo. Todos sabem como o trabalho dessa categoria é precário. Galo luta para que direitos mínimos sejam garantidos, fato que certamente despertou a fúria dos conservadores e das classes dominantes. Sua mulher, Géssica, foi presa como forma de intimidar ainda mais o trabalhador insolente.

Mas quem foi Borba Gato, o homenageado pela estátua incendiada?

Borba Gato foi um bandeirante, isto é, um daqueles mercenários do século XVII que alargaram as fronteiras do Brasil. É claro que isso não aconteceu de maneira bela e edificante, muito pelo contrário, os bandeirantes escravizaram, estupraram, mataram e torturaram homens e mulheres indígenas por onde passaram. Os escravos indígenas da cidade de São Paulo foram quase que totalmente capturados por bandeirantes. Borba Gato ainda é conhecido por ter assassinado um português, obtendo o perdão da Coroa de Portugal quando revelou a localização de minas de ouro no território brasileiro.

Em suma, Borba Gato foi um criminoso, um chefe de bando, que da noite para o dia, com o perdão da Coroa Portuguesa para o homicídio que cometera, se tornou um fidalgo coberto de honrarias. Pois não é que a história se repete no Brasil com estes tantos bandidos cobertos de honrarias que temos hoje no poder?

Mas a questão fundamental que temos que fazer é: por que ainda está de pé a estátua que homenageia não só o colonialismo, o genocídio e a escravidão, mas também na esfera individual um marginal de quinta categoria? A resposta pode ser dupla.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a historiografia oficial brasileira do período republicano buscou símbolos que constituíssem o Brasil como nação. Pedro Álvares Cabral, Tiradentes. Duque de Caxias e os bandeirantes foram moldados pelos historiadores alinhados ao poder como os nossos grandes heróis. Indivíduos que deram a vida em prol da construção do Brasil como um país soberano, diferenciado e destinado ao sucesso. Assim, tornam-se completamente compreensíveis as razões para a existência de uma estátua que homenageia um bandeirante: querem fazer crer que Borba Gato foi um homem que ajudou a formar o Brasil como o conhecemos. Ele contrabandeou, matou, escravizou e estuprou? Um mero detalhe frente à tarefa histórica que teria realizado.

 Afinal, o nacionalismo é o instrumento dos poderosos para a morte da luta de classes. Somos todos iguais, eles dizem, brasileiros, sob a mesma bandeira, o mesmo hino e os mesmos heróis. Não interessa se alguns entre nós são bilionários e outros morrem de fome e de frio. Somos brasileiros e não desistimos nunca. Viva Borba Gato!

A segunda resposta diz respeito ao Estado de São Paulo propriamente dito. Os paulistas sempre se consideraram a locomotiva do Brasil. Na Era Vargas, acreditando terem perdido o protagonismo nacional, se insurgiram contra Getúlio, embora tenham sido, ao fim e ao cabo, derrotados militarmente por este. Os bandeirantes foram selecionados a dedo pela historiografia oficial de São Paulo como o símbolo do empreendedorismo paulista e como os desbravadores que alargaram o território nacional, sendo São Paulo o ponto de partida dessa verdadeira epopeia nacionalista. É desse modo que uma monstruosidade horrenda de dez metros e vinte toneladas como a estátua de Borba Gato ainda permanece de pé, enfeiando São Paulo. Mas não mais sem contestação nos dias de hoje.

Muitos nos setores ditos progressistas reclamaram do ato. Dizem que não se deve “vandalizar” estátuas, que estas fazem parte do patrimônio histórico nacional. Alguns fizeram analogias com palácios que foram tomados por revolucionários e que acabaram ressignificados. A velha tara dos liberais por revolucionários dóceis. Mas vejamos bem. É possível ressignificar uma estátua?

Um palácio usado por um autocrata sem dúvida alguma poderá ser ressignificado, pois um prédio tem funcionalidade (o Kremlin, por exemplo). Já uma estátua, como dito, é e sempre será uma homenagem. Existem estátuas de Hitler na Alemanha? Será que ao fim da Segunda Guerra Mundial alguns alemães consideraram possível ressignificar uma estátua de Hitler e mantê-la de pé como lembrança de um período que não deve se repetir? É claro que não. Estátuas tornam visível aquilo que já não é mais visível e, nessa operação, tornam redivivos e objetos de culto os assassinos do passado e as suas ideias.

Em Star Trek: Deep Space Nine, os usos políticos da memória e da história são um tema bastante presente. Isso tem origem no argumento inicial da série: a Federação – por meio da Frota Estelar – participa ativamente do processo de desocupação do planeta Bajor que havia sido invadido e dominado pelos cardassianos.

Em Bajor, encontramos uma sociedade espiritualizada que tem na religião um importante catalisador da identidade daquele povo. Porém, ao longo de muitas décadas, os bajorianos viveram sob o tacão dos violentos e brutais cardassianos, oriundos de uma civilização colonialista que ocupou Bajor em busca de seus recursos naturais.

Evidentemente, a partir desse cenário, abrem-se inúmeras possibilidades para se contar boas histórias. Afinal, foram muitos anos de violência, resistência, colaboração e inúmeros outros impactos sobre os bajorianos em especial. Um exemplo bastante claro está já na própria estação que dá nome à série.

No início da desocupação a estação Terok Nor foi renomeada como Deep Space Nine. Terok Nor foi construída por ordem dos cardassianos alguns anos antes, tendo como função processar os minérios extraídos do planeta por meio do trabalho escravo de bajorianos (que também forneceram a mão de obra para a sua construção). Mas vejamos como essa questão é interessante. Tão logo os cardassianos abandonam a estação, e esta passa para o controle dos bajorianos e da Federação, o seu nome é trocado. É a ressignificação que falamos antes. O nome Terok Nor, de origem cardassiana e que representava os interesses destes em Bajor é rapidamente apagado para dar lugar ao novo.

Terok Nor era sinônimo de colonialismo, de opressão, de violência, de escravidão, de estupro, de roubo. Enfim, uma nomenclatura que sintetizava por si só toda a brutalidade cardassiana sobre o povo de Bajor. Evidentemente, a tabuleta com este nome não poderia permanecer de pé, sendo imperioso que os bajorianos fizessem esse acerto de contas com o passado, apagando de uma vez por todas o nome que trazia à vida, cada vez que lido ou pronunciado, o terror da ocupação.

Os símbolos são importantes para criaturas simbólicas como são as formas de vida inteligente. No caso de Terok Nor, a troca por Deep Space Nine simbolizou o início de uma nova era. Um momento de reconstrução em que os bajorianos poderiam retomar o curso normal de sua história. Uma coisa que não tem nome não existe. A estação Deep Space Nine nomeada dessa forma indica a superação de uma época de horror e descortina para os bajorianos um horizonte limpo e tranquilo, muito mais condizente com a sua cultura espiritualista.

Vejamos que, diferentemente do que acontece com a estátua de Borba Gato, a estação não foi destruída ou incendiada por aqueles vitimados pela ideia que ela representou. Há uma diferença brutal entre uma estátua e uma edificação. A estátua de Borba Gato tem uma única serventia para a história: ser destruída. A sua destruição é que se tornará o objeto histórico merecedor de análise, estima e aplauso. Por que a estátua foi destruída? Essa é a pergunta que desvelará todo o sentido da luta dos povos oprimidos.

A mesma coisa aconteceria se existissem estátuas de Gul Dukat em Bajor. Dukat foi o administrador cardassiano da ocupação, sendo responsável por todos os horrores desta. Ou então se houvesse um monumento em homenagem a Aamin Marritza, conhecido como o “açougueiro de Gallitep”, um dentre os muitos campos de concentração que vitimaram fatalmente milhões de bajorianos. Certamente, estas hipotéticas estátuas seriam derrubadas sem pestanejar pelos bajorianos, dentre os quais não se levantaria voz alguma exigindo que ficassem de pé em nome de ideias rasas de patrimônio histórico.

Terok Nor, ao contrário, não deve ser destruída. A troca de seu nome é o ato mais importante que pode ser realizado. Ela se torna assim posse e ferramenta dos bajorianos. Ela foi construída pelas suas próprias mãos! Aquela velha instalação que serviu para fornecer o lucro do ocupador, agora torna-se instrumento de paz e de reconstrução, guiando o povo que sofreu a violência a um novo futuro.

Abaixo a estátua de Borba Gato! Viva a Deep Space Nine!

 

***

Eduardo Pacheco Freitas é professor, historiador e autor de dois livros sobre o universo de Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021).

 

 

sábado, 17 de julho de 2021

O machismo de Q

 


Ao longo da história, em inúmeras civilizações, as mulheres estiveram submetidas aos homens. Na Grécia antiga eram pouco mais que animais, com a função exclusiva de parir os novos gregos. Na Europa medieval eram vistas como seres demoníacos, devido à interpretação literal dos escritos bíblicos que atribuíam à Eva a desgraça da humanidade. Durante a Revolução Industrial, equivaliam à metade de um homem como força de trabalho, recebendo assim metade do salário, em geral trabalhando muito mais.

Da mesma forma, as mulheres sempre tiveram o acesso a política vedado por uma sociedade patriarcal, feita de homens para homens. No Brasil, por exemplo, as mulheres passaram a ter o direito de voto somente em 1932, na esteira da modernização da sociedade brasileira iniciada com a Revolução de 1930. Ou seja, faz menos de um século que as mulheres passaram a exercer o direito fundamental do voto no nosso país. Em termos de tempo histórico é muito pouco e, infelizmente, em 2021 ainda encontramos estas visões bastante vivas entre nós, até mesmo em uma nova ascensão podemos dizer. São as justificativas ideológicas para o machismo. Ainda hoje mulheres recebem salários menores que os homens e são objetificadas pela publicidade, dentre tantos outros exemplos que podem ser mobilizados.

Devido a isto, as mulheres sempre se encontraram em posição frágil (ironicamente, não é o sexo feminino, de forma machista, chamado de “sexo frágil”?), em constante ameaça sobre seus (já poucos) direitos. Como afirmou a filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Nada mais verdadeiro.

A moralidade vigente, sempre impôs uma pesada carga às mulheres, que nunca puderam viver livremente sua sexualidade, ao mesmo tempo em que as barbaridades perpetradas pelos homens, como assédios ou estupros, ainda nos dias de hoje são relativizadas. Não é raro ouvir que uma vítima de estupro foi a responsável pelo crime, por estar vestida com roupas que, na visão machista, seriam “inadequadas”.        

Cabe ressaltar que a laboriosa conquista de direitos por parte das mulheres nas últimas décadas se deve ao feminismo. E existe muita confusão em relação aos termos feminismo e feminista, que são tidos por pessoas ignorantes ou mal intencionadas como sinônimos de supremacia das mulheres sobre os homens. Não se trata disso: o feminismo busca a igualdade de direitos entre homens e mulheres, num mundo que sempre os tratou como desiguais. E mais: busca a superação de um modelo de sociedade no qual as mulheres se aproximam a posses dos homens, que a partir disto poderiam fazer o que bem entendessem com a “sua” mulher. A questão da posse é fundamental nesse caso, revelando a conexão com a sociedade de classes, com o capitalismo, com o mundo dividido entre os que possuem e os que são possuídos.

Mas após essa breve introdução, chegamos ao ponto central da coluna desta semana:  a atuação machista do nosso velho conhecido Q em relação a nossa também velha conhecida Vash no episódio “Q-less” (O Lance de Q), de Star Trek: Deep Space Nine.

Q, como vocês devem saber, é aquele ser onipresente, onisciente e onipotente que adora importunar o capitão Jean-Luc Picard, ao qual de maneira debochada chama de “mon capitaine”. Devido ao grande sucesso do personagem, interpretado por John De Lancie, Q estará de volta na segunda temporada de Star Trek: Picard, em 2022. Vash, uma arqueóloga muito pouco ética, também é conhecida dos trekkers como interesse amoroso do nosso querido Picard, que também é arqueólogo nas horas vagas.

Mas a questão é que o casal Q e Vash é formado ao término do episódio “Q-pid” da 4ª temporada de A Nova Geração. Entretanto, tempos depois, Vash termina relacionamento (ninguém pode aguentar o irritante Q por muito tempo), fato que não é bem aceito por Q, em atitude tipicamente machista de achar-se no direito de forçar a companheira a permanecer em uma relação na qual ela já não se sente feliz.

Vash, que após uma temporada de 2 anos no Quadrante Gama, coletando artefatos arqueológicos, chega pelo wormhole à Deep Space Nine, seguida por Q, inconformado com o fim do relacionamento. Sendo assim, Q tenta de todas as formas convencê-la a reatar, propondo viagens a lugares nunca visitados da galáxia e até mesmo a outras galáxias, recebendo como resposta de Vash sucessivas negativas, às quais teima em ignorar.

Desta forma, Q, que nas palavras do capitão Picard é “desonesto, imoral, inconstante e irresponsável”, passa a demonstrar comportamento egoísta e narcisista, típico daqueles homens que, por se considerarem “donos” das mulheres, simplesmente não aceitam o não e acabam por infligir toda sorte de violência ao objeto de suas paixões. Quem estiver no caminho também sofre as consequências. Ao homem cegado pela obsessão que nasce do machismo, não importa quem possa ser atingido, desde que seu objetivo seja logrado.

O episódio representa com precisão este tipo de situação. Quando a estação sofre — e todos que nela se encontram — uma grave ameaça de destruição, o onipotente Q, que facilmente poderia salvar a todos, simplesmente recusa-se a agir, já que não consegue demover Vash de sua decisão de não seguir com o relacionamento. Condiciona a vida de todos na estação a reatar seu relacionamento com Vash. Feminicida e homicida.

No fim, é claro, tudo dá certo e entre mortos e feridos todos se salvam. Sobretudo Vash, que deixa de ser importunada por Q. Infelizmente, no Brasil as coisas não são bem assim. No país, a cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física (Fonte: Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha). Segundo dados do Mapa da Violência de 2015, no ano de 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, ou seja, assassinadas em função de seu gênero, basicamente por homens que não aceitaram o término do relacionamento.

É uma triste realidade, que exige não somente das mulheres, mas dos homens também, a luta diária contra o machismo. Como qualquer criação humana, o patriarcado e o machismo têm origens históricas, já apontadas por Engels em sua obra seminal A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicada em 1884. Cabe ao seres humanos, organizados em torno do bem comum, construírem a sua própria história e relegar o machismo aos museus.

 

***

Eduardo Pacheco Freitas é professor, historiador e autor de dois livros sobre o universo de Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021).

 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Duas utopias socialistas na ficção científica: Estrela Vermelha e Star Trek

 

Oi, pessoal! Sejam bem-vindos à coluna Apenas um Trekker que, com muita honra, tenho a oportunidade de inaugurar hoje no ColetiveArts!

Pra quem ainda não me conhece, eu sou trekker em turno integral e professor e historiador nas horas vagas. Então aqui nesse espaço vocês vão encontrar quinzenalmente algumas linhas sobre elementos instigantes do universo de Jornada nas Estrelas (pra quem tem mais de 40) e Star Trek pro pessoal da “nova geração” (opa, não resisti).

Star Trek trata sobre utopia, trata sobre a construção de uma sociedade sem classes sociais, sem opressão, onde liberdade e igualdade são sinônimos. Star Trek, pra mim, é a representação da sociedade pela qual os comunistas lutam há séculos. É por essas e outras tantas razões que eu amo o universo da Federação Unida de Planetas e nessa jornada (não resisti de novo) que iniciamos hoje iremos visitar tudo que há de mais incrível nessa franquia de ficção científica que completa 55 anos em setembro.

Bom, sem mais delongas, passemos para o tema da coluna de hoje: duas utopias socialistas na ficção científica.

Pra abordar isso vou me ater a duas produções que apresentam sociedades socialistas no futuro. Uma delas, é claro, é Star Trek. A outra é um pouco mais antiga e se trata de um livro: Estrela Vermelha, obra escrita pelo revolucionário russo Aleksandr Bogdánov, em 1908. A primeira foi criada por um texano que foi aviador na Segunda Guerra Mundial e redator de discursos para o chefe da polícia de Los Angeles. Mas não se deixe enganar por essas credenciais: Gene era um progressista.

Já o russo Bogdánov fazia parte do Partido Bolchevique sendo bem próximo a Lênin durante um período. Era uma figura excêntrica que fazia experimentos pioneiros com transfusão de sangue. Acabou morrendo vitimado por suas próprias experiências: uma transfusão que deu errado.

Mas o ponto aqui é que eu vejo pontos de contato muito interessantes nas obras que saíram das mentes desses dois homens tão diferentes, mesmo que elas possuam também grandes e óbvias diferenças, especialmente do ponto de vista formal – afinal, uma se trata de obra televisiva/cinematográfica coletiva e diversificada e a outra é uma peça literária escrita por um único autor.

Estrela Vermelha é uma ficção científica utópica escrita no início do século XX e que nos remete em alguns momentos ao universo de Star Trek. Publicado em 1908, muito antes da era espacial, o livro narra uma curiosa viagem à Marte, onde prospera uma civilização comunista.

No Brasil, a obra só foi publicada em 2020, pela Boitempo, sendo esta edição a primeira tradução para o português. Bogdánov, como já mencionado, era um bolchevique, portanto um militante comunista. A atmosfera e os anseios revolucionários no período em que escreveu a obra eram tão densos que podiam ser cortados a faca. E isso pode ser claramente identificado no livro, que conta, em linhas gerais, a seguinte história (spoiler alert!):

Certo dia, um militante revolucionário chamado Leonid é abordado por um homem muito misterioso que, com o tempo, acaba por se revelar um marciano. Assim, Leonid é convidado a acompanhá-lo em uma insólita viagem até Marte para conhecer a sociedade que existe lá. Esse marciano, chamado Menny, é o líder de uma missão formada por cientistas, engenheiros, e astrônomos que vieram à Terra em busca de uma pessoa que possuísse o perfil adequado para acompanhá-los de volta a Marte. O eleito tinha que acreditar na revolução social e ser um defensor da igualdade. É assim que o revolucionário Leonid é escolhido pelos marcianos.

Chegando em Marte, após uma viagem turbulenta, Leonid se depara com uma sociedade onde não há Estado; a organização social e econômica é baseada na propriedade coletiva; as decisões políticas são tomadas por meio de conselhos no formato de assembleias. Outra coisa muito diferente da vida na Terra é que as relações individuais e amorosas que conhecemos na sociedade de classes já não mais existem lá. Não existe relação de posse entre as pessoas, reflexo de uma sociedade comunista, onde todos são livres. Logo, o amor também é livre.

O ponto chave do livro é apresentar uma utopia socialista e realizar o contraste desta com as sociedades de classes da Terra, de maneira dialética. Além disso, vemos também como reage um indivíduo em uma sociedade totalmente diferente daquelas que conhece e que não ajudou a construir, com os conflitos internos e externos que advém dessa situação. De qualquer forma, Leonid fica encantado com o que vê.

Um trecho significativo do livro que comprova a sua admiração pela nova sociedade é quando ele descobre que as plantas marcianas são vermelhas. O visitante conclui que se o vermelho é a cor da bandeira socialista, consequentemente, ele poderá se acostumar com a cor socialista da natureza marciana.

Menny lhe afirma que na Terra também há uma natureza socialista por trás do tudo que se vê à primeira vista. Basta usar óculos com lentes que absorvam a luz verde e rapidamente o vermelho se manifestará nas plantas. É uma bela metáfora para dizer afirmar a inevitabilidade da revolução socialista.

A utopia da estrela vermelha de Bogdánov possui muito em comum com a utopia socialista da Federação, apesar de algumas diferenças significativas. Ambas apresentam sociedades sem classes sociais. Porém a relação com o trabalho é diferente. Enquanto em Star Trek os replicadores (aparelhos que fazem instantaneamente desde xícaras de chá Earl Grey até máquinas complexas) libertam as pessoas do trabalho, em Marte todos precisam trabalhar, porém em jornadas de trabalho diminutas e não necessariamente sempre no mesmo ofício.

Contudo, as pessoas podem escolher outras atividades para trabalhar de acordo com a sua vocação. A distribuição do trabalho é totalmente livre. Isso só pode acontecer pela grande consciência social de todos, já que, segundo os marcianos, o trabalho é uma necessidade natural do ser socialista desenvolvido. Além, é claro, do grande poderio produtivo e da absoluta racionalidade do processo econômico.

Assim, não há necessidade de nenhum tipo de coerção para o trabalho. Esse aspecto realmente se parece muito com o que vemos em Star Trek. Todas as pessoas trabalham, mesmo não havendo nenhuma obrigatoriedade para isso, seja externa ou seja por uma questão se sobrevivência.

As crianças são criadas de forma comunitária. Existem as chamadas Casas das Crianças, onde vivem até 300 crianças e jovens, que são educados todos juntos, independentemente da idade. Os pais podem visitá-los quando quiserem e até mesmo morar por um tempo nessas casas. Uma concepção bastante próxima às ideias de Alexandra Kollontai sobre a família sob o comunismo. Eis um ponto bem diferente da Federação, onde o modelo de família frequentemente é representado como o mesmo dos dias atuais.

Outro aspecto de divergência é que Marte em breve irá passar por uma crise de desabastecimento, em função do aumento da população, fazendo com que se busque colonizar outro planeta. A Federação abre colônias mas não em função de tragédias climáticas ou produtivas na Terra. Bogdánov já antecipava os reflexos da exploração desenfreada dos recursos naturais no capitalismo. As duas possibilidades de colonização são Vênus ou a Terra.

Então existem debates sobre como fazer isso. Um cientista chamado Sterny, que inicialmente o leitor poderá associar à lógica dos vulcanos, é profundamente frio e analítico. Mas segundo seus colegas, ao decompor seus objetos de estudo, Sterny não obtém nada maior que o todo, pelo contrário, obtém algo menor, prejudicando sua avaliação subjetiva e humana.

Perdendo sua humanidade, Sterny propõe a aniquilação dos humanos da Terra já que não seria possível coexistir com sociedades tão primitivas, afastando-se assim do que seria um pensamento lógico tipicamente vulcano e também dos comunistas. Evidentemente, a maioria não concorda com isso e a maior oposição vem de uma cientista chamada Netty, que defende a tese de que deve haver a fusão das duas humanidades, da Terra e de Marte, de forma que a Terra possa evoluir. Essa é a posição da maioria.

Por um lado, podemos notar uma semelhança com a Federação, tendo em vista que seria formada uma união entre terráqueos e marcianos. Mas percebemos que há uma grande diferença tecnológica e social entre as duas sociedades, fato que mobilizaria a Primeira Diretriz, lei máxima que proíbe a interferência da Federação em outras culturas.

As relações de gênero também são diferentes. É quase impossível diferenciar um marciano homem de uma mulher, eles são, no que se chamaria hoje, não-binários o que é algo bastante ousado para a época em que o livro foi escrito (aqui é possível fazer uma conexão com o episódio The Outcast, de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, que abordo no meu livro Star Trek: utopia e crítica social.

Mas a questão é que Leonid se apaixona por Menny, que até então considerava homem, e acaba por descobrir que ela é de fato uma mulher. Entretanto, o amor livre que ocorre em Marte é incompreendido por Leonid, enquanto ser humano do início do século XX, mesmo sendo socialista.

Estrela Vermelha foi uma obra escrita sessenta anos antes de Star Trek surgir. Mas podemos ver muitas coisas em comum entre ambas. A utopia, a sociedade sem classes e a completa liberdade em relação ao trabalho, sem dúvida alguma, são elementos que aproximam as duas obras que foram na contramão das distopias. Tanto o livro de Alexandr Bogdánov quanto a criação de Gene Roddenberry conseguem vislumbrar outro mundo possível que não seja o capitalismo e o apocalipse inevitável que virá se ele continuar existindo. Star Trek e Estrela Vermelha defendem a utopia, ou seja, a construção de um novo mundo de igualdade, liberdade e da realização integral do ser humano.

***

Eduardo Pacheco Freitas é trekker em turno integral e professor e historiador nas horas vagas. Já cometeu dois livros sobre Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021).

sábado, 19 de junho de 2021

Uma nova missão no universo de Star Trek: O'Brien deve sofrer!

Após lançar em 2019 o livro Star Trek: utopia e crítica social,  o professor e historiador porto-alegrense Eduardo Pacheco Freitas retorna ao universo de Jornada nas estrelas em sua nova obra intitulada O’Brien deve sofrer! Eduardo já é conhecido pelos fãs de Jornada nas estrelas pelo seu canal Apenas um trekker.

Com 122 páginas e valor de R$ 27,90 (envio grátis para todo o Brasil), o livro apresenta uma abordagem inédita das situações extremas vividas pelo personagem Miles Edward O’Brien durante a série Star Trek: Deep Space Nine que foi ao ar nos anos 90 mas ainda hoje faz sucesso entre os fãs de ficção científica em todo o mundo.

“Não chegando a configurar uma distopia, Deep Space Nine deixa a utopia característica de Star Trek um pouco menos colorida, imprimindo-lhe tons acinzentados e mostrando que, entre o preto e o branco, existem inúmeras possibilidades. Digamos que se trata de uma série com feições mais sombrias”, afirma o autor.

“O livro é dedicado a estudar as formas pelas quais um personagem é atormentado ao longo das suas sete temporadas. Muitas vezes nós vimos O’Brien sofrer até chegar às raias da loucura”, complementa Freitas.

O livro está à venda na loja online do autor, no site da editora e na Amazon.

Loja Apenas um Trekker:  https://livrostartrek.loja2.com.br/9822183-Livro-O-Brien-deve-sofrer-

Editora Autografia:  https://www.autografia.com.br/produto/obrien-deve-sofrer/

Amazon: https://www.amazon.com.br/OBrien-Sofrer-Eduardo-Pacheco-Freitas/dp/6559435210/

Instagram: @obriendevesofrer

Facebook: /livrostartrek

Twitter: @obriends9