terça-feira, 27 de novembro de 2018

Alemanha estelar nazista, por Júlia Cruz de Medeiros



Como professor de História e trekker, é evidente que, sempre que possível, utilizo Star Trek em minha atividade docente. Seja em exemplos diversos dados em meio as aulas, seja através de trabalhos mais específicos e elaborados como é o caso do trabalho que relato neste post. 

Tenho uma turma de 9º ano fantástica, com alunos acima da média. Esse fato por si só já facilita tremendamente o meu trabalho, por outro lado coloca um desafio ainda maior a minha frente, já que se tratam de alunos inteligentes e curiosos, que não se satisfazem com o mínimo. Querem sempre o máximo. Por isso, criei uma atividade para o conteúdo de Nazismo e 2ª Guerra Mundial envolvendo o episódio "Padrões de Força", da segunda temporada da série original. Um trabalho exigente, que busca despertar a capacidade dos alunos em interpretarem a sociedade na qual vivem, bem como problemas históricos, a partir das obras audiovisuais de ficção. Mas por que Star Trek, se existem tantas obras que tratam sobre a 2ª Guerra Mundial e o Nazismo que se passam no calor dos acontecimentos? A resposta é simples: pelos valores que Star Trek nos ensina. Além do respeito à liberdade, à diversidade, aprendemos com Star Trek a defesa intransigente da tolerância. A filosofia principal de Jornada nas Estrelas é "Infinita diversidade, em infinitas combinações". Isto é, tudo que aprendemos com a série é justamento o oposto do que o nazismo pregou e colocou em prática. Por fim, o princípio basilar da Federação: A Primeira Diretriz. Esta norma versa sobre o primeiro contato com novas civilizações. É vedada a contaminação cultural sobre sociedades que se encontrem em estágios tecnologicamente inferiores, a fim de evitar o que os europeus fizeram com as sociedades pré-colombianas, por exemplo. Pois é exatamente uma violação da Primeira Diretriz que causa os problemas que podemos acompanhar no episódio. 

 As aulas foram planejadas mais ou menos da seguinte forma:

1. Expliquei brevemente a história do antissemitismo na Europa, até atingir o estágio de "antissemitismo racista", que serviu de força motriz ao nazismo;

2. Contextualizei o ódio e a perseguição sistemática aos judeus ao longo da década de 20 e seu recrudescimento a partir da chegada dos nazistas ao poder;

3. Exibi o documentário "Arquitetura da Destruição" com o objetivo de demonstrar que o nazismo se trata (também) de uma estética, objetivando "embelezar o mundo" através do extermínio dos elementos culturais e artísticos considerados degenerados (entartete kunst), elementos estes associados diretamente aos bolcheviques e aos judeus, considerados pelos nazis "representantes étnicos da internacional comunista"; 

4. Discuti a partir deste dado, que não bastava ao nazismo eliminar a arte "bolchevique e judaica", mas era necessário eliminar fisicamente (a solução final) os criadores desta cultura, isto é, os judeus, que desta forma foram diuturnamente desumanizados pela propaganda nazista, associados perante a opinião pública através dos meios de comunicação de massa a animais, insetos e vermes. Assim surgem os campos de concentração e extermínio. 

5. Para visualizarmos estes elementos em funcionamento, propus a exibição do episódio "Padrões de Força", de Star Trek, onde há uma denúncia contundente do nazismo. Na produção em questão, de 1966 (portanto duas décadas após a liquidação do nazismo), é possível verificar a perseguição, a desumanização e as tentativas de aniquilição de um povo. Na história, nazistas e judeus; na ficção, ekoseanos e zeons. Da mesma forma, o episódio nos transmite a ideia de que qualquer tentativa de extrair algo de positivo do nazismo (o desenvolvimento econômico da Alemanha nazista, por exemplo) é uma impossibilidade. Como disse John Gill, o observador cultural da Federação que feriu a Primeira Diretriz e implantou o regime nazista no planeta Ekos, tornando-se seu fuehrer: "Até mesmo os historiadores falham em aprender história. Cometem os mesmos erros". Sem dúvida, um alerta necessário, sobretudo nestes tempos onde o fascismo volta a mostrar os dentes. Para preparar os alunos, fiz uma apresentação em power point explicando as principais características do regime nazista, destacando um dos objetivos da atividade que é desenvolver o olhar crítico sobre produções audiovisuais e mostrando personagens e filosofias de Star Trek. Complementarmente, distribuí um texto de minha autoria intitulado "Nazismo: a barbárie na civilização", construído de forma a destacar - sem relacionar diretamente - estratégias nazistas para a legitimação do holocausto presentes no episódio "Padrões de Força". 

6. Para finalizar, sugeri aos educandos que produzissem um artigo onde pudessem demonstrar que aprenderam a utilizar as produções audiovisuais como ferramentas de leitura de mundo, interpretação da realidade e problematização historiográfica. O formato do artigo vem em seções padronizadas: Título; Resumo; 1. Introdução (apresentar a intersecção dos dois temas: Nazismo e Star Trek); 2. Nazismo e perseguição aos judeus (com o objetivo de historizar-se o holocausto); 3. Realidade e ficção (com o objetivo de desenvolver a competência de leitura crítica de determinado evento histórico a partir de obra ficcional); 4. Conclusão; Referências. 

Às alunas e aos alunos (meninas dominam!) que atingiram mais do que satisfatoriamente a proposta da atividade, obtendo nota máxima, fiz o convite para que seus textos fossem publicados aqui, o que foi aceito por Henrique, Ellen, Júlia, Luana, Sara e pelo Felipe, algo que me honra demais. Como é bom quando o professor tem esse material humano para trabalhar. São meus queridos formandos da turma 92, turma a qual me sinto extremamente orgulhoso e agraciado com o privilégio de ser seu paraninfo.

Começamos pelo texto da Júlia: 



ALEMANHA ESTELAR NAZISTA 


Júlia Cruz de Medeiros


RESUMO: O objetivo deste artigo é entender o ódio de Adolf Hitler e seus seguidores pelos judeus e sua vontade incontrolável de criar um mundo de uma só raça, fazendo um paralelo com o episódio da série Star Trek como uma história fictícia, passada durante o poder de Hitler na Alemanha. Com isto, neste artigo, serão apresentados fatos tirados do livro escrito pelo próprio Hitler e momentos de terror comprovados pelo livro de Anne-Frank. Por outro lado, já Star Trek, irá mostrar de forma cômica e fictícia uma parte da Alemanha nazista. Os resultados encontrados neste artigo serão de ódio por parte nazista, terror por parte das vítimas do preconceito e conceito histórico por apreciadores da série americana Star Trek.

PALAVRAS CHAVE: Anti-semitismo; Star Trek; Hitler; Alemanha; Nazista.


INTRODUÇÃO

      Neste trabalho será abordado como principal tema o antissemitismo e a relação do episódio da série Star Trek com o nazismo. Falarei sobre os terríveis pensamentos de Adolf Hitler sobre a humanidade e seus feitos. A série Star Trek, irá demonstrar de um jeito diferenciado a Alemanha nazista mas sem desmerecer seus horríveis feitos.

NAZISMO E PERSEGUIÇÃO AOS JUDEUS

       ‘’Mein Kampf’’, ou em português, ‘’Minha Luta’’ foi o livro que Adolf Hitler, o comandante da ideologia nazista na Alemanha, escreveu na prisão em 1924. Com ideologias de divisão de raças, aparências físicas, estabelecendo ordens superiores e inferiores, doutrinando a ideologia nazista. Especialmente com os judeus, Hitler se refere a eles como seres sujos, nojentos, imundos e os acusando de conduzir uma conspiração internacional para impor sua cultura mundialmente. Publicado em 1925, ‘’Mein Kampf’’ reforçou mais o antissemitismo e a ideologia de uma ‘’raça superior’’.
        Com o Partido Nacional Socialista Trabalhador Alemão, Hitler criou um exército de de seguidores alemães com suas promessas de campanha política como empregos (a Alemanha passava por um momento de crise), e orgulho na pátria e da raça ariana. Assim, Hitler assumiu o poder em 1919, levando informalmente sua ideologia de raça pura por toda Alemanha. Assim surge a Alemanha Nazista.
     Antes mesmo da 2ª Guerra Mundial, os judeus já sofriam bastante com o preconceito e com as dificuldades de seguir sua religião. Estourada a 2ª Guerra Mundial, tudo começou a ficar pior. Criou- se os Campos de Concentração, que eram os lugares que os judeus ficavam antes de serem mortos por um gás altamente tóxico que foi feito para matar insetos, sofrem trabalho escravo e eram cobaias de experimentos científicos. Os judeus eram identificados por uma estrela de seis pontas amarela, ou seja, uma estrela de Davi. Os judeus ficavam escondidos em casas secretas para não serem pegos pelo exército alemão e serem enviados para campos de concentração. O livro ‘’O Diário de Anne Frank’’ fala sobre Anne se esconder com sua família para não ser levada ou denunciada para o exército Alemão, mas infelizmente descobrem sua família e os envolvidos do esconderijo deles e são levados para os Campos de Concentração. O antissemitismo demorou um tempo para ser abolido totalmente, nos dias de hoje é crime, mas infelizmente ainda possuímos vários outros preconceitos, com várias outras classes, gêneros, opções sexuais e cor da pele.

REALIDADE E FICÇÃO

       A série de televisão americana Star Trek, retrata de forma fictícia mas com grandes referências o episódio 21 da segunda temporada da série, a Alemanha do século 23, a Alemanha Nazista. No episódio, a nave Enterprise está à procura do historiador, John Gill, que pode ser comparado com Adolf Hitler. John, instalou um regime que ele considerava, através de seus estudos, capaz de organizar aquela sociedade, assim como o pensamento de Hitler. Os Zeons podem ser representados pelos judeus, já que eles são perseguidos pelos Ekoseanos, ou seja, os nazistas. Outro personagem que pode ser reconhecido como uma representação de Hitler, seria Melakon. Vice de John, Melakon, justificava os problemas da sociedade Ekos (planeta em que viviam) como culpa dos Zeons. Melakon também cria a ‘’decisão final’’que, no nosso mundo real, seria o genocídio judeu. A frase ‘’Mesmo historiadores falham em aprender história. Acabam repetindo os mesmos erros’’ foi uma das últimas palavras ditas de John Gill no episódio antes de morrer.

CONCLUSÃO

      Adolf Hitler é, até hoje, uma das principais figuras do Nazismo. Neste artigo foi abordados temas sobre o ódio incontrolável dos nazistas pelos judeus, os terríveis fatos escritos no livro que, hoje em dia, é um dos mais vendidos no mundo e um episódio inspirado na Alemanha Nazista de uma das séries mais conhecidas e aclamadas do mundo. O antissemitismo, O Diário de Anne Frank e o episódio especial de Star Trek foram a base para este artigo e para a história do nazismo, tanto na literatura quanto em Hollywood.

REFERÊNCIAS 












segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O machismo em Q

Q_and_Vash

Durante quase a totalidade da história humana, em suas mais diversas civilizações, as mulheres estiveram submetidas aos homens. Na Grécia antiga eram pouco mais que animais, com a função exclusiva de parir os novos gregos. Na Europa medieval eram vistas como seres demoníacos, devido a interpretação literal dos escritos bíblicos que atribuíam a Eva a desgraça da humanidade. Durante a chamada Revolução Industrial, equivaliam a metade de um homem como força de trabalho, recebendo assim metade do salário, muitas vezes trabalhando mais que os homens.

Da mesma forma, sempre tiveram o acesso a política vedado por uma sociedade patriarcal, feita de homens para homens. No Brasil, por exemplo, as mulheres passaram a ter o direito de voto somente em 1932, na esteira da modernização da sociedade brasileira iniciada com a Revolução de 1930. Ou seja, faz menos de um século que as mulheres passaram a exercer o direito fundamental do voto. Em termos de tempo histórico é muito pouco e, infelizmente, em 2018 ainda encontramos estas visões bastante vivas entre nós. São as justificativas ideológicas para o machismo. Ainda hoje mulheres recebem salários menores que os homens e são objetificadas pela publicidade, dentre tantos outros exemplos do machismo.

Devido a isto, as mulheres sempre se encontraram em posição frágil (ironicamente, não é o sexo feminino, de forma machista, chamado de "sexo frágil"?), em constante ameaça sobre seus (já poucos) direitos. Como afirmou a filósofa francesa Simone de Beauvoir: "Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados". Nada mais verdadeiro.
Além disso, a moralidade vigente, sempre impôs uma pesada carga às mulheres, que nunca puderam viver livremente sua sexualidade, ao mesmo tempo em que as barbaridades perpetradas pelos homens, como assédios ou estupros, ainda nos dias de hoje são relativizadas. Não é raro ouvir que uma vítima de estupro foi a responsável pelo crime, por estar vestida com roupas que, na visão machista, seriam "inadequadas".

Cabe ressaltar que, a laboriosa conquista de direitos por parte das mulheres nas últimas décadas, se deve ao feminismo. E existe muita confusão em relação aos termos feminismo e feminista, que são tidos por pessoas ignorantes (e aqui não coloco nenhum juízo de valor, me refiro apenas ao fato de uma pessoa que ainda desconhece algo que pode vir a conhecer através da educação) como sinônimos de supremacia das mulheres sobre os homens. Não se trata disso: o feminismo busca a igualdade de direitos entre homens e mulheres, num mundo que sempre os tratou como desiguais. E mais: busca a superação de um modelo de sociedade no qual as mulheres se aproximam a posses dos homens, que a partir disto poderiam fazer o que bem entendessem com a "sua" mulher.

É neste último sentido que vemos atuar o nosso velho conhecido Q em relação a nossa também velha conhecida Vash no episódio "Q-less" (O Lance de Q), de Deep Space Nine.

O casal, formado ao término do episódio "Q-pid" (Q-pido), da 4º temporada de A Nova Geração, termina seu relacionamento, fato que não é bem aceito por Q, em atitude tipicamente machista de achar-se no direito de forçar a companheira a permanecer em uma relação na qual ela já não se sente feliz.

Vash, que após uma temporada de 2 anos no Quadrante Gama, coletando artefatos arqueológicos, chega pelo wormhole à Deep Space Nine, seguida por Q, inconformado com o fim do relacionamento. Sendo assim, Q tenta de todas as formas convencê-la a reatar, propondo viagens a lugares nunca visitados da galáxia e até mesmo a outras galáxias, recebendo como resposta de Vash sucessivas negativas, às quais teima em ignorar.

Desta forma, Q, que nas palavras do capitão Picard é "desonesto, imoral, inconstante e irresponsável", passa a demonstrar comportamento egoísta e narcisista, típico dos homens que, por se considerarem "donos" das mulheres, simplesmente não aceitam o não e acabam por infligir toda sorte de violência ao objeto de suas paixões. Quem estiver no caminho também sofre as consequências. Ao homem cegado pela obsessão que nasce do machismo, não importa quem possa ser atingido, desde que seu objetivo seja logrado.

O episódio representa com precisão este tipo de situação. Quando a estação sofre - e todos que nela se encontram - uma grave ameaça de destruição, o onipotente Q, que facilmente poderia salvar a todos, simplesmente recusa-se a agir, já que não consegue demover Vash de sua decisão de não seguir com o relacionamento.

No fim, tudo dá certo e entre mortos e feridos todos se salvam. Sobretudo Vash, que deixa de ser importunada por Q. Infelizmente, no Brasil as coisas não são bem assim. No país, a cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física (Fonte: Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha). Segundo dados do Mapa da Violência de 2015, no ano de 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, ou seja, assassinadas em função de seu gênero, basicamente por homens que não aceitaram o término do relacionamento.

É uma triste realidade, que exige não somente das mulheres, mas dos homens também, a luta diária contra o machismo.

Q-less (Episódio 7 – Temporada 1)
Roteiro: Robert Hewitt Wolfe
Direção: Paul Lynch
Exibido pela primeira vez em 07/02/1993

domingo, 25 de novembro de 2018

A ideologia em Tosk

tosk

Ideologia é um conceito antigo, criado pelo filósofo francês Destutt de Tracy há mais de 200 anos. Inicialmente, a palavra tinha o sentido de "ciência das ideias", porém com o passar do tempo o conceito foi se tornando mais complexo, tendo importância central nos escritos de Karl Marx, por exemplo.

Dentre as concepções mais relevantes sobre o que significa ideologia atualmente, duas merecem destaque especial: a concepção neutra e a concepção crítica.

A neutra significa que ideologia é um sistema de crenças, morais, religiosas, políticas, econômicas, sociais etc. Desta forma, a ideologia seria apenas uma visão de mundo.

Já para a concepção crítica, a ideologia é uma espécie de máscara que oculta a realidade, servindo assim para a dominação de uma classe sobre a outra. Ou então para a opressão de um sexo sobre o outro, de uma "raça" sobre a outra, etc. Em síntese: uma falsa consciência. A ideologia de uma sociedade seria sempre a ideologia da classe dominante, fazendo por exemplo, que escravos permaneçam escravizados, que mulheres se sujeitem ao machismo, que o racismo seja estrutural e negros situem-se marginalizados em relação aos brancos. É a naturalização de criações sociais.

No episódio 6 da 1ª temporada, "Captive Pursuit" (Caça e Caçador), a estação recebe seu primeiro visitante do Quadrante Gama. Tosk surge em dificuldades e é resgatado pela tripulação da DS9. Ao longo do episódio compreendemos que a espécie de Tosk serve exclusivamente para a caça de outra espécie dominante. Isto nos leva a perguntar: mas por qual razão aqueles iguais a Tosk não se rebelam contra esta tirania? É aí que entra a concepção crítica da ideologia que falamos anteriormente.

Tosk, aprisionado pela falsa consciência ideológica, que o faz encarar como natural o fato artificial de que sua espécie serve apenas para tentar superar a astúcia de seus algozes, passa sua vida a fugir, com o objetivo de que por fim seja caçado, consumando o sentido (para John B. Thompson ideologia é sentido à serviço do poder) esperado para sua existência naquela sociedade.

É emblemático que Tosk, quando questionando sobre seu comportamento, invariavelmente responde: Eu SOU Tosk. Ou seja, em sua visão, é parte de sua própria essência ser objeto de satisfação das necessidades de uma classe dominante. E apenas isso. Contudo, embora não possa ver, ele está enganado, pois como ser senciente que é possui direito à vida e à liberdade, algo que não percebe por estar na prisão da ideologia, segundo sua concepção crítica.

Semelhanças com o mundo que conhecemos? Muitas. Mais um exemplo de como Star Trek, de forma brilhante, representa a sociedade na qual vivemos.

Captive Pursuit (Episódio 6 - Temporada 1)
Roteiro: Jill Sherman Donner e Michael Piller
Direção: Corey Allen
Exibido pela primeira vez em 31/01/1993

sábado, 24 de novembro de 2018

Aproximações entre o movimento Escola sem Partido e a Escola com Religião da vedek Winn

kai winn escola sem partido



Nestes tempos onde o obscurantismo ganha cada vez mais força, seja em suas teorias terraplanistas, seja na crítica ao evolucionismo e defesa do criacionismo, ou ainda: na contestação dos direitos das minorias sociais, o trabalho dos professores vem sendo sistematicamente atacado por setores conservadores que parecem querer desacreditar o papel libertador e promotor do pensamento crítico da educação. 

São movimentos de caráter retrógrado que, em última análise, advogam não ser papel da escola se contrapor ao senso comum e que "confundem a educação escolar com aquela fornecida pelos pais e, com isso, o espaço público e privado, o princípio da laicidade do Estado, o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas" (Gabatz, 2018).

Um dos movimentos que mais se destaca neste sentido é conhecido como Escola Sem Partido, criado em 2004 pelo advogado paulista Miguel Nagib. Através de ações articuladas por políticos de viés conservador - quando não reacionários - o movimento tem proposto em diversas casas legislativas país afora, a partir de suas interpretações deturpadas da Constituição Federal, projetos de lei com a intenção de intimidar professores, em um claro atentado à liberdade de cátedra, conquista fundamental das sociedades democráticas. O projeto se trata de uma tentativa de amordaçar os profissionais da educação, ao sugerir que estes possuem "partido", enterrando a possibilidade de construção do conhecimento, que se dá através do diálogo entre alunos e professores. Sob pretexto de combater uma suposta "doutrinação ideológica" por parte dos professores, o movimento revela sua própria ideologia, conservadora e à serviço dos grupos dominantes.

Assim, o Escola sem Partido pretende colocar os professores em constante vigilância por meio de expedientes grotescos, tais como a proposta de se afixar um cartaz em cada sala de aula do país com "mandamentos" a serem cumpridos pelos educadores, estimulando a delação (como os jovens nazistas incentivados a denunciar judeus e comunistas ao Partido Nazista) por parte dos alunos que considerem estar estas regras sendo desrespeitadas durante as aulas. Desta forma, determinados temas estariam vedados e os professores se tornariam os únicos trabalhadores a não possuírem liberdade de expressão. O absurdo se torna evidente: a sala de aula, lugar privilegiado de discussão, torna-se apenas um local no qual um instrutor despeja conteúdos sobre os alunos para que estes os memorizem e os reproduzam nas avaliações, sem necessidade de pensar. É a típica visão de que a educação, sobretudo a dos pobres, deve servir exclusivamente para a formação de mão de obra, desqualificando a formação cidadã dos indivíduos como coisa de "comunista".

Outra conquista essencial das sociedades democráticas de direito é a laicidade do ensino. Portanto, religião e educação não se misturam. Na escola, se houver, o ensino religioso deve abarcar todas as manifestações espirituais, sem favorecer esta ou aquela crença. Afinal, a escola, embora a subjetividade também esteja presente, é lugar de conhecimento racional e científico, deixando a fé para as igrejas e famílias.

Um movimento conservador e reacionário como o Escola sem Partido hipocritamente defende que a educação deve ser neutra, mas por outro lado, afirma que as crenças religiosas das famílias dos alunos (evidentemente a fé cristã) não podem ser examinadas e problematizadas pelos educadores. Nessa defesa, identificam-se ao menos dois graves erros: em primeiro lugar a escola não ataca nenhuma fé, ela discute ideias e analisa fatos, sejam eles históricos, sociais, biológicos etc., algo que com frequência colide com doutrinas religiosas. Em segundo lugar, se a escola for um espaço dedicado a simplesmente ratificar o senso comum, não há necessidade de sua existência, já que as crianças e jovens teriam todo aprendizado que precisam na família. O que fica subentendido na proposta, além de sua demanda por "neutralidade", é que o professor não pode ter "partido", mas que seria conveniente ter religião.

É sabido, por qualquer pessoa com o mínimo de instrução, que a neutralidade não existe. Todos temos nossas próprias histórias, construídas a partir de nossas experiências e conhecimentos acumulados ao longo da vida, que nos tornam aquilo que somos, seja em termos políticos, morais, religiosos, ideológicos etc. Um ideal que é possível perseguir seria o da imparcialidade. Por exemplo: um professor, mesmo que politicamente à esquerda ou à direita, pode explicar para seus alunos as principais características da esquerda e da direita sem oferecer nenhum tipo de juízo de valor. No entanto, para os defensores do Escola sem Partido isto seria impossível, ao considerarem que a maior parte dos professores atua como militantes esquerdistas. Doutrinadores que se aproveitam da "ingenuidade" de seus alunos para conquistá-los para suas causas.

Nada mais errado. Tratar os jovens alunos como tábulas rasas, que não contestam ou não avaliam criticamente aquilo que seus professores ensinam em aula, é de uma insensata desonestidade. Cada vez mais os alunos, ao acessarem todo tipo de informação (que saliente-se, não é necessariamente conhecimento), se colocam em posição de contrapor aquilo que aprendem na escola ao que conhecem na internet, nos livros, no cinema, na televisão. A ideia do Escola Sem Partido soa ridícula: os alunos seriam criaturas passivas, vitimadas por terríveis vilões travestidos de educadores.

Este é o pensamento de Winn Adami, a kai de Bajor. Kai é um título semelhante ao de Papa, ou seja, Winn Adami é a líder religiosa do espiritualizado povo bajoriano. A estrutura hierárquica de religião de Bajor é semelhante à estrutura da Igreja católica, onde os vedeks ocupam o posto do que seriam os cardeais. Antes de se tornar kai, Winn era uma vedek fundamentalista, ardilosa e obcecada pelo poder.

Na primeira temporada de Deep Space Nine, em seu 20º e último episódio "In the Hands of Prophets" (Nas Mãos dos Profetas), a vedek Winn chega à estação com o objetivo de interferir nos trabalhos de sua escola, conduzida por Keiko O'Brien. Evidentemente, Keiko em sua atuação como professora, procura reger suas aulas de maneira laica, priorizando o conhecimento científico em vez das crenças religiosas, não somente de Bajor, mas de quaisquer outras civilizações. Este fato incomoda sobremaneira a vedek, que, além de invadir, de forma desrespeitosa, uma das aulas de Keiko, passa a mobilizar os pais dos alunos contra a educação laica, que considera uma profanação da doutrina religiosa bajoriana. Para a vedek, ao ensinar que o wormhole se trata de uma estrutura artificial, criada por alienígenas - contatados pelo comandante Sisko, na ocasião de sua descoberta -, Keiko estaria incorrendo em blasfêmia, desrespeitando a crença de que o "buraco de minhoca" é o Templo Celestial, morada dos Profetas, entidades objeto de veneração pelos bajorianos.

Keiko, exercitando sua autonomia docente, bate de frente com Winn Adami, não aceitando a interferência da líder religiosa no currículo escolar. Afinal, como discutimos acima, não é papel do professor, crítico por natureza, reproduzir explicações da realidade que não possuam embasamentos empíricos ou teóricos de pesquisa. Caso muito diferente das religiões, que estruturam seu conhecimento, prioritariamente, sobre outra importante dimensão humana que é a fé.

Portanto, ao interferir na liberdade de ensinar da professora Keiko, a vedek Winn aproxima-se dos defensores do Escola sem Partido, que julgam saber mais que os professores, que dedicaram suas vidas ao estudo das disciplinas que ministram. Da mesma forma, podemos perceber a aproximação das duas visões a partir de suas características autoritárias, que à revelia dos educadores, definem aquilo que é ou não é correto ensinar. Por um lado, um movimento que afirma que a escola possui partido, por outro, a defesa de que a escola deve ter religião.

Nem todo religioso ou toda religião são obscurantistas. Assim como nem todos os conservadores são reacionários. Contudo, com frequência, os aspectos conservadores e religiosos situam-se na base de movimentos que (embora neguem) possuem objetivos políticos e orientações ideológicas bem definidas, tais como o Escola sem Partido e o fundamentalismo da vedek Winn. Em síntese, ambos buscam anular o pensamento crítico, manter sob controle parcelas significativas da sociedade e inviabilizar qualquer tipo de transformação do mundo.

In the Hands of Prophets (Episódio 20– Temporada 1)
Roteiro: Robert Hewitt Wolfe
Direção: David Livingston
Exibido pela primeira vez em 20/06/1993
*Este texto é uma versão resumida do artigo "O movimento Escola sem Partido e a"Escola com Religião: aproximações a partir da série Star Trek: Deep Space Nine", publicado na Revista Licencia& Acturas, v. 6, n. 1, janeiro/junho 2018. Disponível em: https://www.academia.edu/37307356/O_movimento_Escola_sem_Partido_e_a_Escola_com_Religi%C3%A3o_aproxima%C3%A7%C3%B5es_a_partir_da_s%C3%A9rie_Star_Trek_Deep_Space_Nine

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Apenas um Trekker contra o fascismo! #EleNão #TrekkersContraOFascismo

Acho que meu posicionamento sempre foi muito claro a respeito de questões políticas.

Além de fã de Star Trek, sou um homem de esquerda, que deve parcela de sua revolta contra a injustiça, a desigualdade e a intolerância com o que aprendeu assistindo Jornada nas Estrelas.

Por isso, me causa espanto pessoas que ficaram indignadas com a postura enfática do grupo Apenas um Trekker contra o avanço no país, representado pela candidatura de Jair Bolsonaro. Mas mais espanto ainda me causa que muitas delas apoiam o fascismo. Não entenderam nada da série que dizem amar? Francamente... é decepcionante.

Para ilustrar bem isso e tentar esclarecer os motivos de que votar nesse cara é um atentado contra a democracia e contra os grupos oprimidos da sociedade, é que elaborei uma campanha perguntando "Você votaria nele?", exibindo uma série de vilões que apareceram ao longo da série.

Confira os cartazes abaixo. Divulgue entre seus amigos, sobretudo entre aqueles que são trekkers.

Vida longa e próspera à democracia, à igualdade e à liberdade!

#EleNão
#TrekkersContraOFascismo












segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Divulgado pôster da segunda temporada de Star Trek: Discovery

Foi divulgado hoje um pôster para a segunda temporada de Discovery, que irá ao ar em janeiro de 2019.

Na imagem, no centro do emblema da Frota, vemos um símbolo semelhante a uma ave.

Será um sinal de que os romulanos, que tem uma ave como símbolo, estariam chegando em Discovery?




domingo, 30 de setembro de 2018

Star Trek Voyager: uma série com personagens chatos?



Com todo respeito aos que a tem como sua preferida ou entre as melhores séries de Star Trek, considero Voyager uma série fraca (em que pese a importância de uma mulher capitã e muitos episódios ótimos).

Em minha visão, o que faz a série não ser tão boa quanto as outras são os seus personagens, que avalio desinteressantes e pouco carismáticos, no geral.

Por exemplo, comparem-se os personagens de Voyager aos de Deep Space Nine e a diferença de qualidade saltará aos olhos (nem vou mencionar Neelix!).

À exceção, cito Tom Paris, um personagem com potencial, porém sub-aproveitado; e o melhor de todos (um dos mais fascinantes de toda a franquia, aliás) o Doutor, com suas múltiplas e profundas camadas, que testam as infinitas possibilidades da inteligência artificial, tema caro à ficção científica.

Qual sua opinião?

Vida longa e próspera!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Confira o primeiro trailer de Star Trek: Short Treks



A CBS All Access acaba de publicar o trailer do primeiro episódio de Star Trek: Short Treks

O episódio "Runaway", mostrará o encontro da cadete Tilly com uma forma de vida alienígena em busca de ajuda.

"Runaway" irá ao ar em 04/10, exclusivamente nos EUA para assinantes do CBS All Access.



Confira o trailer no link abaixo:

https://twitter.com/CBSAllAccess/status/1045372504091459584


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

#EleNao - Trekkers contra o fascismo



Não existe nada mais oposto do que um trekker e um fascista. 

Por isso, o blog e o grupo Apenas um Trekker se posicionam de forma enfática contra a ascensão do fascismo no Brasil, representada pela candidatura à Presidência de Jair Bolsonaro. 

Nossos valores significam o contrário de tudo defendido pelo candidato. Defendemos a liberdade, a igualdade, a diversidade a paz e a cooperação entre todos, independentemente de cor, gênero, orientação sexual e nacionalidade. 

Estes são os princípios basilares da Federação dos Planetas Unidos e são eles que sempre defenderemos.

Assim, conclamamos a todos os trekkers comprometidos com a democracia e a liberdade a gritarem bem alto, neste momento crucial de nossa história: #EleNao!

Compartilhe com todos, use como capa do facebook, use a hashtag, divulgue entre amigos, familiares e fãs de Star Trek. Não importa o candidato democrata em que você irá votar. A luta é contra o fascismo e exige união de todos os progressistas. Juntos somos fortes e venceremos o obscurantismo e a violência.

Temos uma versão em inglês que deve ser encaminhada aos atores da franquia, costumeiramente comprometidos com causas humanitárias. Contamos com a ajuda de todos nesse momento crucial de nossa história. 



Dúvidas e sugestões, entre em contato. 

Vida longa e próspera. 

#EleNao
#TrekkersContraEle

P.S.: Fascistas serão sumariamente expulsos do grupo. Intolerância aos intolerantes.

Ajude enviando o seguinte texto pelo twitter aos atores de Star Trek, anexando a imagem com os dizeres em inglês:

"Please support Brazilian trekkers with #EleNao (#NotHim) hashtag against fascism in Brazil. Jair Bolsonaro, presidential candidate, is a far-right politician known for being against women's rights, black people and LGBT population. Thank you."

Como informação adicional você enviar também o link abaixo, com matéria que explica o movimento #EleNao #NotHim

"More info:

Jair Bolsonaro: Why Brazilian women are saying #NotHim

https://www.bbc.com/news/world-latin-america-45579635

#EleNao #StarTrek"

Rosario Dawson quer viver uma klingon na nova série sobre Jean-Luc Picard



Anunciada a nova série de Star Trek que traz de volta o personagem Jean-Luc Picard (Patrick Stewart), o interesse em participar do elenco desperta entre os atores trekkers de carteirinha.

Quem se manifestou nesse sentido foi a atriz Rosario Dawson (Claire Temple nas séries da Marvel na Netflix). 

Dawson que é fã de Jornada desde a infância, revelou sua vontade de integrar o elenco da série mostrará Picard 20 anos após o filme Star Trek: Nemesis.

"Eu cresci amando Star Trek e ainda estou esperando pelo meu holodeck. Minha série favorita é a Next Generation por causa de Jean-Luc Picard. Se eles precisarem de uma Klingon para a nova série, bem, você já viu minha testa?", conta Dawson.

A atriz ainda revela o motivo principal de sua paixão por Star Trek:

 “Eu amo Star Trek porque sempre me maravilhei com a ideia de um mundo sem capitalismo”, disse ela.

Esperamos que Dawson, que é uma grande atriz, seja de fato escalada para a nova série. É sempre bom que atores que conhecem e amam a franquia façam parte do elenco.