sexta-feira, 30 de setembro de 2022

35 anos de Star Trek: The Next Generation

E lá se vão 35 anos desde que a majestosa ENTERPRISE-D iniciou a sua jornada!

Confira a live especial para celebrar a data.




Confira meus livros sobre o universo de Star Trek:

🖖 Star Trek: utopia e crítica social https://t.co/qktneADaPI

🖖 O'Brien deve sofrer! https://t.co/ec4G8w0xcL


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Gene Roddenberry e sua visão da sociedade mostrada em Star Trek

 Gene Roddenberry sobre como pensou a sociedade vista em Star Trek:

""I don't like too much violence. I refuse to have the future run by the United States of America because I don't think that's the way it will be. I refuse to have an all lily-white, Anglo-Saxon crew. And I think if they had said, 'This ship has to be an instrument of the CIA of the future, of keeping the galaxies safe for democracy,' I certainly would have said, 'You can shelve the whole project."" (from "RODDENBERRY: The Man Who Created Star Trek (English Edition)" by James Van Hise)

 

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Apostila do curso "Star Trek: 55 anos de utopia e crítica social"

 


Tá liberada (gratuitamente) a apostila do curso 'StarTrek: 55 anos de utopia e crítica social' que ministrei no ano passado. 

Baixem à vontade e compartilhem com os amigos e amigas trekkers.

É nesse link: https://www.academia.edu/82523068/Star_Trek_55_anos_de_utopia_e_critica_social

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Star Trek: Strange New Worlds


Após anos apostando em temporadas fortemente serializadas com Discovery e Picard, Star Trek retorna às suas origens, apresentando em Strange New Worlds histórias mais episódicas, divertidas e cheias de aventura. Gostei. 

Já a segunda temporada de Star Trek: Picard decepcionou. Após uma excelente primeira temporada, a série voltou com uma história confusa, cheia de som e fúria, mas com pouco significado. Atribuo a queda na qualidade à ausência de Michael Chabon na produção dos roteiros. Torço para que ele volte na próxima e última temporada. 


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O kelpien Saru e o pintor Giotto

 

No episódio “Morrer tentando”, da terceira temporada de Star Trek: Discovery, o capitão Saru, em pleno século 32, menciona o pintor medieval Giotto di Bondone, que viveu entre os século XIII e XIV, portanto na Baixa Idade Média.

O contexto no qual Saru menciona o pintor é o da busca de novos olhares, de novas perspectivas para a reconstrução da Federação. O kelpien está preocupado com o Almirante Vance que mostra, com alguma razão, uma postura cautelosa e conservadora sobre missões exploratórias.

Então Saru, desejando que a Discovery possa sair explorando a galáxia, defende seu ponto de vista usando o exemplo de Giotto, que havia revolucionado a pintura a partir de uma nova abordagem artística.

O que fica claro nesse ponto é que tanto Saru quanto Giotto são ambos questionadores e promotores de rupturas, e daí vem a admiração do kelpien pelo artista italiano.

Vamos ver melhor isso.

A importância de Giotto para a história da pintura

Giotto foi um precursor da Renascença ao introduzir a perspectiva na pintura europeia que era, até então, bidimensional. Ou seja, as pinturas com profundidade que conhecemos hoje devem sua existência a Giotto.

Além disso, Giotto dá vida aos personagens representados em suas obras. Embora continue pintando motivos religiosos e cenas bíblicas, Giotto o faz com personagens que parecem gente de verdade, inclusive quando pinta os santos. Giotto é o agente de um importante ponto de inflexão na arte ocidental. Um artista que sinalizava o fim de uma era e a chegada de uma nova. O fim de uma era de trevas e a chegada das luzes.

No século 32 de Discovery temos esse mesmo problema colocado.

Características compartilhadas com Saru

Saru possui muitas coisas em comum com o pintor que admira. Assim como Giotto, Saru levava uma vida simples no campo, uma vida rural pré-determinada: passar pelo Vaharai e ser colhido pelos Bauls.

Giotto era apenas um menino que cuidava de ovelhas e gostava de desenhar e sonhava com um mundo diferente. Quando descoberto por Cimabue (o último grande pintor europeu de tradição bizantina) ele percorre uma nova trilha. Foi o seu talento e curiosidade que alteraram o rumo da sua vida camponesa.

Com Saru ocorre o mesmo. Curioso, inquieto, olhava para o céu e para o seu redor e questionava o mundo em que vivia. Sua curiosidade o levou a descobrir como mandar um sinal para o espaço. Sinal respondido pela Frota Estelar. E assim ele se tornou o primeiro kelpien da Frota e, como Giotto, encerrou uma era do seu povo e abriu uma nova. No século 32 descobrimos que Kaminar, o planeta de Saru já faz parte da Federação. O seu sonho foi realizado.

Em comum os dois têm essa fascinação pelos céus e pelas estrelas. Durante a vida de Giotto houve a passagem do cometa Halley, inspirando o artista na representação da Estrela de Belém na pintura Adoração dos Magos.

Incompreensão e reconhecimento

Saru foi desencorajado pelo seu pai na sua busca por conhecimento. Isso significa que Saru, me desculpem o clichê, estava à frente do seu tempo e por isso mesmo não era compreendido. A mesma coisa com Giotto.

Existem poucos registros sobre a vida do pintor medieval, mas penso que podemos afirmar com certeza que muitas pessoas devem ter estranhado o seu novo modo de pintar e até mesmo o desencorajado. Assim como Saru. Mas isso não impediu que Giotto fosse aclamado em sua própria época, algo raro na história da pintura. Inclusive por Dante Alighieri.

Saru também é reconhecido entre os seus pares como alguém notável, fora do comum. O fato de vir de um povo muito primitivo e chegar aos mais altos postos na Frota Estelar é a prova disso. E quando pensamos nisso percebemos claramente como existem pontos de contato nas trajetórias de Giotto e de Saru e é por isso que o nosso querido kelpien admira o pintor e a sua lição de que novas perspectivas sempre serão importantes para a história.

E é por isso também que nessa nova Idade das Trevas que Saru encontra no século 32 que ele resgata a figura de Giotto, um artista que teve a capacidade de lançar um novo olhar sobre o mundo e abrir novas perspectivas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Os 55 anos de Star Trek: o ser humano em busca da Fronteira Final

 


Eu me tornei fã de Jornada nas Estrelas no ano em que ela completava 25 anos. Lá se vão exatas três décadas, e hoje, 8 de setembro de 2021, a jornada original de 5 anos da USS Enterprise chega a impressionantes 55 anos. Completar tanto tempo no ar com a vitalidade e a relevância que a série original exibe é pra poucos (não nos esquecendo de todas as suas séries derivadas, tão ou até mais importantes do que a original). 

Era quase impossível imaginar naquela altura que Star Trek chegaria tão longe, onde nenhuma série jamais esteve. E isso se deu não somente pelas histórias empolgantes, pelos atores carismáticos, pela imponente nave Enterprise. A permanência de Jornada nos corações e mentes de gerações de trekkers deve muito ao seu tema principal: o ser humano e a sua aventura pelo tempo e pelo espaço. 

Não apenas o ser humano em seus dilemas e ofícios, mas o ser humano naquilo que possui de melhor: o seu amor pelo conhecimento, a sua busca por evolução e a sua tentativa de viver uma vida de harmonia e paz. Estes elementos constituem a essência de Star Trek, que por isso mesmo apaixona a todos que compartilham dos mesmos ideais. O humanismo em Jornada nas Estrelas é onipresente. 

Enquanto a ficção científica até então apresentava mundos distópicos, com tristes fins para a humanidade, Gene Roddenberry (que neste ano de 2021 completaria 100 anos) tomou a direção oposta, criando uma utopia de união dos povos, de respeito às diferenças - e não só respeito, mas a valorização destas – e também um universo no qual os problemas típicos da nossa era – pobreza, violência, guerra, racismo etc. -  haviam sido superados. Um mundo de liberdade personificado na sociedade conhecida como Federação Unida de Planetas. 

Mas muito além da liberdade, a igualdade. Afinal, uma pode existir sem a outra? O incontornável filósofo Domenico Losurdo nos ensina que não. Para que haja, de fato, a verdadeira liberdade, é preciso antes de tudo a igualdade. A sociedade vista na Federação Unida de Planetas nos revela isso: já não há mais classes sociais, nem a exploração de poucos sobre muitos. Assim, os seres humanos se tornaram aptos para o pleno desenvolvimento, livres das amarras da opressão, seja de qual tipo for.

O meio-humano e meio-vulcano Spock, a partir da sua lógica, nos legou o ensinamento de que as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos. O capital, que já não mais existe naquele universo, dá lugar ao social, cede seu espaço à humanidade. Aliás, a filosofia geral de Star Trek também vem dos vulcanos: infinita diversidade em infinitas combinações. Igualdade, liberdade e a celebração da diferença. 

Star Trek demonstra que é com o contato com o outro que nos tornamos melhores. Que aprimoramos a nós mesmos para enriquecermos o nosso espírito e colaborarmos com o desenvolvimento coletivo, sendo esta última lição aprendida com o maior capitão de toda a história da Frota Estelar, o francês com sotaque e hábitos britânicos (Tea. Earl Grey. Hot.), Jean-Luc Picard. 

Tudo isso, e muito mais, toca fundo no imaginário das pessoas. Assim explica-se o devotado amor dos fãs pela série. Star Trek nos oferece valiosos ensinamentos que devem ser cultivados para fortalecermos a crença de que, sim, um outro mundo é possível. Não somente possível, mas uma imposição histórica sob pena de que a sua não realização comprometerá a própria existência da humanidade como um todo. 

Estamos muito longe ainda de atingirmos o quase paraíso imaginado por Gene Roddenberry, o que não nos impede de sonhar, e melhor ainda: sonhar juntos. E mais que isso: agir. Agir para construir a utopia. É isso que os trekkers têm feito ao longo dos 55 anos de Jornada nas Estrelas. Acreditamos em valores que ainda continuam sendo expressos só na tela da TV. Mas acreditamos que um dia poderemos chegar lá. E tentamos atuar como os nossos intrépidos heróis estelares. 

Star Trek se traduz em esperança. Star Trek nos motiva, nos alegra e nos aponta direções. Além dos inúmeros casos em que a série influenciou avanços científicos, não podemos nunca esquecer que o modelo social que a série apresenta deve servir como um parâmetro para os nossos próprios avanços sociais, aqui no atrasado século 21. 

A crítica social presente em incontáveis episódios de todas as suas encarnações também nos convida a refletir sobre nosso presente e a pensar nas formas de superar suas mazelas. Afinal, Star Trek nos conta histórias que se passam no espaço para falar da Terra; nos apresenta interessantes espécies alienígenas como metáforas da humanidade; e, mais importante, nos leva ao futuro para nos revelar o presente. Para que possamos revolucionar o velho mundo e construir o novo. Para que finalmente deixemos para trás a nossa pré-história e iniciemos, de fato, a história. Aí então essa longa jornada fará cada vez mais sentido. 

Vida longa e próspera a Star Trek. Que possamos viajar a bordo da Enterprise por muitos e muitos anos ainda, sempre em  busca da Fronteira Final, segunda estrela à direita, até o amanhecer...

sábado, 4 de setembro de 2021

Curso Star Trek: 55 anos de utopia e crítica social - agradecimentos

 Foi uma grande satisfação ministrar esse curso. Agradeço ao Jorge da produtora de cursos de televisão e cinema Cine Um pelo convite e apoio. Mas, sobretudo, meu obrigado vai para todas e todos que participaram. Foi ótimo discutir com vocês a utopia e a crítica social de Star Trek no momento em que seu criador, Gene Roddenberry, completaria 100 anos, e no ano em que sua criação imortal completa 55. Valeu! Uma vida longa e próspera.




sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Saiba mais sobre o curso STAR TREK: 55 ANOS DE UTOPIA E CRÍTICA SOCIAL

 



Apresentação do curso

STAR TREK: 55 ANOS DE UTOPIA E CRÍTICA SOCIAL

 

Star Trek é um fenômeno da cultura pop que cativa legiões de fãs há mais de cinco décadas. Ao longo de todo esse tempo, muito além do que seria apenas um programa genérico de ficção científica, Star Trek propôs reflexões sobre diversos problemas sociais.  Através da representação de uma sociedade utópica, personificada na instituição conhecida como Federação Unida de Planetas, aprendemos que o mundo visto em Star Trek superou a pobreza e a sociedade de classes, tornando-se uma sociedade pós-capitalista na qual acredita-se que “a acumulação de riqueza já não é mais a força motriz da vida”, nas palavras do personagem Jean-Luc Picard. A utopia de Star Trek é uma aposta na capacidade humana de evoluir e superar suas contradições históricas.

No caminho inverso da quase totalidade das produções do nicho da ficção científica e suas distopias aterradoras, Star Trek demonstra que existe um caminho melhor a ser seguido pela humanidade. Porém, não se trata de uma esperança vã, ingênua e acidental. Além de apresentar uma etapa superior da jornada humana pelo tempo e pelo espaço, Star Trek realiza, através de inúmeros episódios, surpreendentes críticas sociais, tornando muito nítida, por meio da ficção, a necessidade premente de superação dos problemas históricos reais como o racismo, o machismo, a desigualdade etc. É nesse sentido que podemos afirmar que Star Trek nos mostra o futuro para discutir o presente; nos leva pelo espaço para revelar a Terra; e nos apresenta toda sorte de espécies alienígenas para falar sobre o ser humano.

Ao longo dos seus 55 anos, a serem completados em setembro de 2021, Star Trek já produziu mais de 800 episódios para a TV e 13 filmes para o cinema. Diante dessa obra monumental, optamos por efetuar um recorte que abarca as três primeiras produções live action da franquia: Star Trek (1966-1969), Star Trek: The Next Generation (1987-1993) e Star Trek: Deep Space Nine (1993-1999), universo que, por si só, já compreende 17 temporadas e aproximadamente 400 episódios. Para os fins a que esse curso se destina – conhecer a utopia e a crítica social em  Star Trek – consideramos que essas três produções nos oferecem o melhor e mais relevante material a ser estudado.

 

Objetivos

O objetivo do curso é discutir as representações dos ideais utópicos de uma sociedade pós-capitalista nas séries Star Trek, Star Trek: The Next Generation e Star Trek: Deep Space Nine, bem como debater os convites à reflexão sobre questões sociais que estão presentes em seus episódios.

Para isso, é preciso determinar as temáticas abordadas, as perspectivas adotadas, a forma com que as histórias foram realizadas e a relevância dessas discussões para os fãs e para a franquia dentro do universo da cultura pop.

Igualmente, buscamos definir as relações possíveis entre a utopia expressa na franquia Star Trek, o contexto histórico das suas diversas produções e as críticas sociais efetuadas em episódios icônicos.

 

Conteúdo das aulas

Aula 1

·         Um panorama geral de Star Trek, a série clássica.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek, a série clássica em episódios selecionados.

·         Um panorama geral de Star Trek: The Next Generation.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek: The Next Generation em episódios selecionados.

Aula 2

·         Um panorama geral de Star Trek: Deep Space Nine.

·         A utopia e a crítica social em Star Trek: Deep Space Nine em episódios selecionados.

·         A jornada prossegue: de Star Trek: Voyager até Star Trek: Strange New Worlds.

 Datas

Aula 1: 28 de agosto de 2021 (14h - 16h30)

Aula 2: 29 de agosto de 2021 (14h - 16h30)


Inscrições: https://www.sympla.com.br/curso-online-star-trek-55-anos-de-utopia-e-critica-social__1298400


O curso será ministrado online pelo zoom. 


Ministrante

Eduardo Pacheco Freitas é trekker em turno integral e professor e historiador nas horas vagas. Já cometeu dois livros sobre Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021). Além disso, é o criador do blog e do canal Apenas um Trekker, voltados para a produção de conteúdo sobre Star Trek em português.


Realização: Cine Um

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A estátua de Borba Gato e Terok Nor

 

Recentemente, a estátua do bandeirante Borba Gato, situada em São Paulo, foi alvo de uma manifestação na qual um grupo a incendiou. Esse ato corajoso e revolucionário segue uma tendência mundial em que organizações populares buscam destruir símbolos de um passado colonialista, escravocrata e genocida, passado este que é memorado e homenageado na forma de estátuas e monumentos que representam alguns dos seus agentes.

Foi assim com diversas estátuas de Cristóvão Colombo nos Estados Unidos e na Colômbia, e também com a estátua do traficante de escravos do século XVII Edward Colston, na Inglaterra. O entendimento dos manifestantes que promovem estes atos é de que toda estátua é uma homenagem. Logo, se uma estátua foi erigida representando um invasor que deflagrou o genocídio dos índios das Américas ou então um agente ativo do holocausto africano, parece evidente que estas estátuas, mais do que prestarem tributo a estes homens e seus atos, celebram as ideias que estiveram por trás deles.

Representar é tornar o ausente presente. Quando uma estátua é levantada ela dá corpo aquilo que já feneceu. Uma estátua de Cristóvão Colombo materializa a invasão das Américas e o os subsequentes genocídio indígena/escravidão africana. A estátua de Colston traz de volta à vida todo o sofrimento imposto, por meio das armas e da ideologia, aos povos da África durante séculos. Em cada uma destas estátua, o colonialismo, pai do racismo, da miséria e da submissão de uma infinidade de povos na atualidade, é glorificado e revivido. A estátua de Borba Gato enquadra-se perfeitamente nesse cenário.

 A questão central aqui é compreendermos por qual razão ainda hoje é possível que traficantes de escravos, genocidas, ditadores e outros bandidos sejam homenageados. As estátuas, monumentos e nomes de ruas que os representam não brotaram do nada. Muito pelo contrário, foram fruto da ação concreta de homens e mulheres concretos.

Na cidade de Porto Alegre, por exemplo, há uma avenida chamada Castelo Branco, em homenagem a um dos ditadores da Ditadura Civil-Militar de 1964. Por um breve período, o povo conseguiu renomeá-la para Avenida da Legalidade, em rememoração ao movimento liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola, em 1961, garantindo a posse de João Goulart, ameaçada pelos militares. Sairia a homenagem a um ditador e entraria a celebração da democracia. Entretanto, as forças políticas retrógradas do estado, apegadas ao passado ditatorial e sabedoras da importância dos símbolos para a política e para a ideologia, conseguiram regredir e rebatizar a avenida com o velho nome.

Algo assim acontece agora em relação ao incêndio na estátua de Borba Gato. Há um verdadeiro frenesi por parte da direita e da extrema-direita contra os manifestantes, tachados de terroristas. Houve a prisão a jato de três pessoas, sendo que uma delas nem estava presente no ato, presa apenas por ser a companheira de Paulo Galo, um líder em ascensão pelos direitos dos entregadores de aplicativo. Todos sabem como o trabalho dessa categoria é precário. Galo luta para que direitos mínimos sejam garantidos, fato que certamente despertou a fúria dos conservadores e das classes dominantes. Sua mulher, Géssica, foi presa como forma de intimidar ainda mais o trabalhador insolente.

Mas quem foi Borba Gato, o homenageado pela estátua incendiada?

Borba Gato foi um bandeirante, isto é, um daqueles mercenários do século XVII que alargaram as fronteiras do Brasil. É claro que isso não aconteceu de maneira bela e edificante, muito pelo contrário, os bandeirantes escravizaram, estupraram, mataram e torturaram homens e mulheres indígenas por onde passaram. Os escravos indígenas da cidade de São Paulo foram quase que totalmente capturados por bandeirantes. Borba Gato ainda é conhecido por ter assassinado um português, obtendo o perdão da Coroa de Portugal quando revelou a localização de minas de ouro no território brasileiro.

Em suma, Borba Gato foi um criminoso, um chefe de bando, que da noite para o dia, com o perdão da Coroa Portuguesa para o homicídio que cometera, se tornou um fidalgo coberto de honrarias. Pois não é que a história se repete no Brasil com estes tantos bandidos cobertos de honrarias que temos hoje no poder?

Mas a questão fundamental que temos que fazer é: por que ainda está de pé a estátua que homenageia não só o colonialismo, o genocídio e a escravidão, mas também na esfera individual um marginal de quinta categoria? A resposta pode ser dupla.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a historiografia oficial brasileira do período republicano buscou símbolos que constituíssem o Brasil como nação. Pedro Álvares Cabral, Tiradentes. Duque de Caxias e os bandeirantes foram moldados pelos historiadores alinhados ao poder como os nossos grandes heróis. Indivíduos que deram a vida em prol da construção do Brasil como um país soberano, diferenciado e destinado ao sucesso. Assim, tornam-se completamente compreensíveis as razões para a existência de uma estátua que homenageia um bandeirante: querem fazer crer que Borba Gato foi um homem que ajudou a formar o Brasil como o conhecemos. Ele contrabandeou, matou, escravizou e estuprou? Um mero detalhe frente à tarefa histórica que teria realizado.

 Afinal, o nacionalismo é o instrumento dos poderosos para a morte da luta de classes. Somos todos iguais, eles dizem, brasileiros, sob a mesma bandeira, o mesmo hino e os mesmos heróis. Não interessa se alguns entre nós são bilionários e outros morrem de fome e de frio. Somos brasileiros e não desistimos nunca. Viva Borba Gato!

A segunda resposta diz respeito ao Estado de São Paulo propriamente dito. Os paulistas sempre se consideraram a locomotiva do Brasil. Na Era Vargas, acreditando terem perdido o protagonismo nacional, se insurgiram contra Getúlio, embora tenham sido, ao fim e ao cabo, derrotados militarmente por este. Os bandeirantes foram selecionados a dedo pela historiografia oficial de São Paulo como o símbolo do empreendedorismo paulista e como os desbravadores que alargaram o território nacional, sendo São Paulo o ponto de partida dessa verdadeira epopeia nacionalista. É desse modo que uma monstruosidade horrenda de dez metros e vinte toneladas como a estátua de Borba Gato ainda permanece de pé, enfeiando São Paulo. Mas não mais sem contestação nos dias de hoje.

Muitos nos setores ditos progressistas reclamaram do ato. Dizem que não se deve “vandalizar” estátuas, que estas fazem parte do patrimônio histórico nacional. Alguns fizeram analogias com palácios que foram tomados por revolucionários e que acabaram ressignificados. A velha tara dos liberais por revolucionários dóceis. Mas vejamos bem. É possível ressignificar uma estátua?

Um palácio usado por um autocrata sem dúvida alguma poderá ser ressignificado, pois um prédio tem funcionalidade (o Kremlin, por exemplo). Já uma estátua, como dito, é e sempre será uma homenagem. Existem estátuas de Hitler na Alemanha? Será que ao fim da Segunda Guerra Mundial alguns alemães consideraram possível ressignificar uma estátua de Hitler e mantê-la de pé como lembrança de um período que não deve se repetir? É claro que não. Estátuas tornam visível aquilo que já não é mais visível e, nessa operação, tornam redivivos e objetos de culto os assassinos do passado e as suas ideias.

Em Star Trek: Deep Space Nine, os usos políticos da memória e da história são um tema bastante presente. Isso tem origem no argumento inicial da série: a Federação – por meio da Frota Estelar – participa ativamente do processo de desocupação do planeta Bajor que havia sido invadido e dominado pelos cardassianos.

Em Bajor, encontramos uma sociedade espiritualizada que tem na religião um importante catalisador da identidade daquele povo. Porém, ao longo de muitas décadas, os bajorianos viveram sob o tacão dos violentos e brutais cardassianos, oriundos de uma civilização colonialista que ocupou Bajor em busca de seus recursos naturais.

Evidentemente, a partir desse cenário, abrem-se inúmeras possibilidades para se contar boas histórias. Afinal, foram muitos anos de violência, resistência, colaboração e inúmeros outros impactos sobre os bajorianos em especial. Um exemplo bastante claro está já na própria estação que dá nome à série.

No início da desocupação a estação Terok Nor foi renomeada como Deep Space Nine. Terok Nor foi construída por ordem dos cardassianos alguns anos antes, tendo como função processar os minérios extraídos do planeta por meio do trabalho escravo de bajorianos (que também forneceram a mão de obra para a sua construção). Mas vejamos como essa questão é interessante. Tão logo os cardassianos abandonam a estação, e esta passa para o controle dos bajorianos e da Federação, o seu nome é trocado. É a ressignificação que falamos antes. O nome Terok Nor, de origem cardassiana e que representava os interesses destes em Bajor é rapidamente apagado para dar lugar ao novo.

Terok Nor era sinônimo de colonialismo, de opressão, de violência, de escravidão, de estupro, de roubo. Enfim, uma nomenclatura que sintetizava por si só toda a brutalidade cardassiana sobre o povo de Bajor. Evidentemente, a tabuleta com este nome não poderia permanecer de pé, sendo imperioso que os bajorianos fizessem esse acerto de contas com o passado, apagando de uma vez por todas o nome que trazia à vida, cada vez que lido ou pronunciado, o terror da ocupação.

Os símbolos são importantes para criaturas simbólicas como são as formas de vida inteligente. No caso de Terok Nor, a troca por Deep Space Nine simbolizou o início de uma nova era. Um momento de reconstrução em que os bajorianos poderiam retomar o curso normal de sua história. Uma coisa que não tem nome não existe. A estação Deep Space Nine nomeada dessa forma indica a superação de uma época de horror e descortina para os bajorianos um horizonte limpo e tranquilo, muito mais condizente com a sua cultura espiritualista.

Vejamos que, diferentemente do que acontece com a estátua de Borba Gato, a estação não foi destruída ou incendiada por aqueles vitimados pela ideia que ela representou. Há uma diferença brutal entre uma estátua e uma edificação. A estátua de Borba Gato tem uma única serventia para a história: ser destruída. A sua destruição é que se tornará o objeto histórico merecedor de análise, estima e aplauso. Por que a estátua foi destruída? Essa é a pergunta que desvelará todo o sentido da luta dos povos oprimidos.

A mesma coisa aconteceria se existissem estátuas de Gul Dukat em Bajor. Dukat foi o administrador cardassiano da ocupação, sendo responsável por todos os horrores desta. Ou então se houvesse um monumento em homenagem a Aamin Marritza, conhecido como o “açougueiro de Gallitep”, um dentre os muitos campos de concentração que vitimaram fatalmente milhões de bajorianos. Certamente, estas hipotéticas estátuas seriam derrubadas sem pestanejar pelos bajorianos, dentre os quais não se levantaria voz alguma exigindo que ficassem de pé em nome de ideias rasas de patrimônio histórico.

Terok Nor, ao contrário, não deve ser destruída. A troca de seu nome é o ato mais importante que pode ser realizado. Ela se torna assim posse e ferramenta dos bajorianos. Ela foi construída pelas suas próprias mãos! Aquela velha instalação que serviu para fornecer o lucro do ocupador, agora torna-se instrumento de paz e de reconstrução, guiando o povo que sofreu a violência a um novo futuro.

Abaixo a estátua de Borba Gato! Viva a Deep Space Nine!

 

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Eduardo Pacheco Freitas é professor, historiador e autor de dois livros sobre o universo de Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021).

 

 

sábado, 17 de julho de 2021

O machismo de Q

 


Ao longo da história, em inúmeras civilizações, as mulheres estiveram submetidas aos homens. Na Grécia antiga eram pouco mais que animais, com a função exclusiva de parir os novos gregos. Na Europa medieval eram vistas como seres demoníacos, devido à interpretação literal dos escritos bíblicos que atribuíam à Eva a desgraça da humanidade. Durante a Revolução Industrial, equivaliam à metade de um homem como força de trabalho, recebendo assim metade do salário, em geral trabalhando muito mais.

Da mesma forma, as mulheres sempre tiveram o acesso a política vedado por uma sociedade patriarcal, feita de homens para homens. No Brasil, por exemplo, as mulheres passaram a ter o direito de voto somente em 1932, na esteira da modernização da sociedade brasileira iniciada com a Revolução de 1930. Ou seja, faz menos de um século que as mulheres passaram a exercer o direito fundamental do voto no nosso país. Em termos de tempo histórico é muito pouco e, infelizmente, em 2021 ainda encontramos estas visões bastante vivas entre nós, até mesmo em uma nova ascensão podemos dizer. São as justificativas ideológicas para o machismo. Ainda hoje mulheres recebem salários menores que os homens e são objetificadas pela publicidade, dentre tantos outros exemplos que podem ser mobilizados.

Devido a isto, as mulheres sempre se encontraram em posição frágil (ironicamente, não é o sexo feminino, de forma machista, chamado de “sexo frágil”?), em constante ameaça sobre seus (já poucos) direitos. Como afirmou a filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Nada mais verdadeiro.

A moralidade vigente, sempre impôs uma pesada carga às mulheres, que nunca puderam viver livremente sua sexualidade, ao mesmo tempo em que as barbaridades perpetradas pelos homens, como assédios ou estupros, ainda nos dias de hoje são relativizadas. Não é raro ouvir que uma vítima de estupro foi a responsável pelo crime, por estar vestida com roupas que, na visão machista, seriam “inadequadas”.        

Cabe ressaltar que a laboriosa conquista de direitos por parte das mulheres nas últimas décadas se deve ao feminismo. E existe muita confusão em relação aos termos feminismo e feminista, que são tidos por pessoas ignorantes ou mal intencionadas como sinônimos de supremacia das mulheres sobre os homens. Não se trata disso: o feminismo busca a igualdade de direitos entre homens e mulheres, num mundo que sempre os tratou como desiguais. E mais: busca a superação de um modelo de sociedade no qual as mulheres se aproximam a posses dos homens, que a partir disto poderiam fazer o que bem entendessem com a “sua” mulher. A questão da posse é fundamental nesse caso, revelando a conexão com a sociedade de classes, com o capitalismo, com o mundo dividido entre os que possuem e os que são possuídos.

Mas após essa breve introdução, chegamos ao ponto central da coluna desta semana:  a atuação machista do nosso velho conhecido Q em relação a nossa também velha conhecida Vash no episódio “Q-less” (O Lance de Q), de Star Trek: Deep Space Nine.

Q, como vocês devem saber, é aquele ser onipresente, onisciente e onipotente que adora importunar o capitão Jean-Luc Picard, ao qual de maneira debochada chama de “mon capitaine”. Devido ao grande sucesso do personagem, interpretado por John De Lancie, Q estará de volta na segunda temporada de Star Trek: Picard, em 2022. Vash, uma arqueóloga muito pouco ética, também é conhecida dos trekkers como interesse amoroso do nosso querido Picard, que também é arqueólogo nas horas vagas.

Mas a questão é que o casal Q e Vash é formado ao término do episódio “Q-pid” da 4ª temporada de A Nova Geração. Entretanto, tempos depois, Vash termina relacionamento (ninguém pode aguentar o irritante Q por muito tempo), fato que não é bem aceito por Q, em atitude tipicamente machista de achar-se no direito de forçar a companheira a permanecer em uma relação na qual ela já não se sente feliz.

Vash, que após uma temporada de 2 anos no Quadrante Gama, coletando artefatos arqueológicos, chega pelo wormhole à Deep Space Nine, seguida por Q, inconformado com o fim do relacionamento. Sendo assim, Q tenta de todas as formas convencê-la a reatar, propondo viagens a lugares nunca visitados da galáxia e até mesmo a outras galáxias, recebendo como resposta de Vash sucessivas negativas, às quais teima em ignorar.

Desta forma, Q, que nas palavras do capitão Picard é “desonesto, imoral, inconstante e irresponsável”, passa a demonstrar comportamento egoísta e narcisista, típico daqueles homens que, por se considerarem “donos” das mulheres, simplesmente não aceitam o não e acabam por infligir toda sorte de violência ao objeto de suas paixões. Quem estiver no caminho também sofre as consequências. Ao homem cegado pela obsessão que nasce do machismo, não importa quem possa ser atingido, desde que seu objetivo seja logrado.

O episódio representa com precisão este tipo de situação. Quando a estação sofre — e todos que nela se encontram — uma grave ameaça de destruição, o onipotente Q, que facilmente poderia salvar a todos, simplesmente recusa-se a agir, já que não consegue demover Vash de sua decisão de não seguir com o relacionamento. Condiciona a vida de todos na estação a reatar seu relacionamento com Vash. Feminicida e homicida.

No fim, é claro, tudo dá certo e entre mortos e feridos todos se salvam. Sobretudo Vash, que deixa de ser importunada por Q. Infelizmente, no Brasil as coisas não são bem assim. No país, a cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física (Fonte: Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha). Segundo dados do Mapa da Violência de 2015, no ano de 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, ou seja, assassinadas em função de seu gênero, basicamente por homens que não aceitaram o término do relacionamento.

É uma triste realidade, que exige não somente das mulheres, mas dos homens também, a luta diária contra o machismo. Como qualquer criação humana, o patriarcado e o machismo têm origens históricas, já apontadas por Engels em sua obra seminal A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicada em 1884. Cabe ao seres humanos, organizados em torno do bem comum, construírem a sua própria história e relegar o machismo aos museus.

 

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Eduardo Pacheco Freitas é professor, historiador e autor de dois livros sobre o universo de Jornada nas Estrelas: Star Trek: utopia e crítica social (2019) e O'Brien deve sofrer! (2021).